Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Eu tentei não escrever, não deu. Que não seja em vão.

[Já aviso que o texto é longo. Agradeço a leitura até o fim, de mente e coração abertos. Busquei respeitar e espero o mesmo, portanto, ódio não cabe aqui.]

São alguns meses querendo, mas evitando escrever. E tem sido bem difícil evitar essa minha paixão, sobretudo quando você vê que não existe interesse real em ler, pensar e refletir, mas, em combater, sufocar e impor – não importam os meios. Quem me conhece há algum tempo sabe como eu penso, como eu sou e o que eu acho das coisas. Eu nunca escondi e nunca tive medo de dizer, embora reconheça minha própria truculência às vezes quando, apaixonado, defendo um ponto.

Mas algumas coisas nessa vida não simples questão de opinião, muito menos de isenção.

Meu falecido avô, Sr. Oswaldo Ramos, pai da minha mãe, foi político a vida toda (do PMDB, pasmem). Ele viveu (e basicamente morreu) por isso, pela pequena vila que ele ajudou a transformar em cidade, pra levar educação pra gente pobre daquela vila, buscando as crianças no meio do nada, de carroça, pra trazê-las pra escola, porque tinha isso no sangue, porque tinha ideais e pensava além do chapéu dele. Cresci nesse meio e por diversas vezes estive por perto quando ele recebia seus aliados, adversários, os interesseiros, os admiradores, ali no quintal dele, embaixo da parreira, sempre com o cigarro de palha na boca e discutia as coisas da vida da mesma maneira com todos. Eu era muito pequeno, é verdade, mas alguma coisa ali eu certamente absorvi e guardei.

Minha mãe, por sua vez, obviamente partilhou mais ainda dessa vida política e intensa e tornou-se uma das pessoas mais interessadas e consumidora de informações que eu conheço e, consequentemente, outra influência capital durante meu amadurecimento enquanto pessoa. Os primeiros jornais que li, os primeiros programas de rádio, os primeiros assuntos que discuti vinham sempre de indicações dela (ou de coisas que ela mesma ouvia e eu por osmose passei a vida ouvindo) e, mesmo que hoje tenhamos diferenças fundamentais em algumas coisas, ela sempre será um dos meus principais modelos de debate e busca por conhecimento.

Depois, aborrecentes, é comum buscarmos nossa afirmação como “ser-pensante-e-opinador” de alguma maneira e, basicamente, saímos em busca de ídolos ao nosso redor. Gente que entendemos saberem mais que nós passam a ser modelos e, sem perceber, começamos a repetir suas próprias visões e argumentos. Porém, tudo aquilo que foi absorvido e está crescendo dentro da sua alma desde sempre ou se conflita com seus novos ídolos ou se alinha – e é nesse momento que você entende suas verdades, seus ideais e, com sorte, percebe que o mundo não é você.

E já são décadas tentando digerir esse caos – a política, a sociedade, pra mim, não começaram com textões cheios de fatos genéricos e que só servem pra provar meus pontos em redes sociais, muito menos ~militando~ em 2013, na Paulista. Mesmo buscando beber de todas as fontes que eu pudesse, foi muito, mas muito difícil entender que a vida é plural, multifacetada e complexa. É difícil também, ainda mais pra mim, admitir que não sou dono da verdade, mas, apesar de não ter interesse algum em tentar te convencer, eu não posso simplesmente abaixar a cabeça e admitir a superficialidade e fragilidade do que – com muita dor, de verdade – li, vi e ouvi nos últimos anos.

Nesse ponto do texto, certamente você já começou a entender pra onde vai essa ladainha e está me chamando de alguma coisa teoricamente ofensiva, em dúvida se essas idéias são minhas mesmo ou se são fruto de algum tipo de lavagem cerebral que eu sofri, acertei? Comunista de iPhone, petralha, esquerdopata e socialista de caviar passam pela sua cabeça, aposto. Deve, também, estar pensando que estou sendo pago, que só quero surfar algum tipo de onda populista ou, ainda, que minha hipocrisia não tem tamanho porque certamente é muito fácil esse idealismo (afinal, ideologia só existe no lado oposto ao seu) por detrás de um notebook. Não condeno, mas peço que siga lendo – continuo sem garantir que você vai gostar, no entanto.

Eu não faço parte de nenhuma minoria, muito pelo contrário. Sempre tive uma família tradicional brasileira bem estruturada, condição financeira razoavelmente estável e, mesmo quando passamos por perrengues lá em casa, nunca foi nem 0,5% do que a maior parte da população brasileira sofre, afinal, ficar sem Trakinas uma semana não é passar fome. Eu, junto com outras pessoas, poderia me dar o luxo de não me preocupar com quem ganha ou perde uma eleição, já que, proporcionalmente, serei um dos menos afetados. Mas eu me preocupo porque, repito, o mundo não sou eu. E olha só, eu entendo e defendo a pluralidade desse mundo (disse isso ali em cima, não disse?) e, por mais que talvez às vezes eu precise engolir seco e fique puto com argumentos opositores aos meus que não fazem sentido, são opiniões e a gente cresce tentando aprender como debater ideias.

Só que assim, tem um limite.

Quando você acha que tem que privatizar a porra toda é uma opinião, mas achar que assistência aos mais necessitados é “compra de votos” e que gays, negros e mulheres vivem de coitadismo é flertar com a falta de caráter. Quando você diz que a relação público-privada está corrupta e que esse mal precisa ser expurgado é uma opinião, mas não abrir mão de dar um jeito de pagar pra tirar a CNH ou comprar aquele recibo do seu médico favorito pra pagar menos IR é ser corrupto. Quando você acha que 12 anos de um mesmo governo é projeto de poder, mas 30 de outro é competência, é ser, no mínimo, desonesto. Quando você diz que “todo mundo rouba mas o último governo aperfeiçoou isso” é ser caolho. Quando você diz que todos devem ser investigados e punidos nos rigores da lei, mas curiosamente decidiu pensar isso só depois de um espectro político que nunca representou (ou não representa mais), suas visões, você habita a linha tênue que tento expandir abaixo.

Nós (todos nós, enfatizo) não somos reis da coerência, eu sei. É bastante foda, mas mesmo com esses exemplos aí em cima, ainda existe uma brecha (com um pouco de boa vontade, vai) pra conversar, dialogar e até em “concordar em discordar”, mesmo tendo que lidar com a flagrante falta de vontade de buscar contrapontos. Afinal, se você perceber que está falando algo que não é bem a verdade fica ruim, então, melhor não investigar e se amarrar na âncora do seu argumento raso. Agora, usar esses argumentos só como pano de fundo pra esconder que a gente gosta mesmo é de repreensão, unicidade de pensamento, silêncio, cangalha e obediência é de foder e, basicamente, errado.

Você pode ser anti o que você quiser nessa vida, meu amigo, mas não seja imbecil o suficiente pra ser anti você mesmo. Quando você abre mão da sua mínima coerência e bondade como ser humano, deixa de querer que as pessoas tenham um mínimo de dignidade, acha que a solução é emudecer quem pensa diferente e começa a ter que operar contorcionismos lógicos pra convencer a você mesmo de que está certo, de que “vale tudo, desde que não sejam esses caras no poder”, você dá um tiro na própria cabeça, mas culpa a sensibilidade do gatilho.

Existem muitas, mas muitas coisas que ainda precisam melhorar, serem esclarecidas, revistas e mudadas – isso é a vida. Mas se existe um fato concreto é que o caminho é diametralmente oposto ao que se desenha. E não me venha com o papinho de que não havia opções: você nunca teve só duas opções, meu caro, você teve quase 10. Essa é só mais uma máscara pra esconder que, no fundo, você gosta mesmo é de não ter que conviver com quem pensa diferente de você e questiona suas decisões, escondendo isso sob a égide da “canseira da velha política”.

É muito, mas muito assustador ver pessoas que acreditaram que tudo foi um plano e que estávamos a caminho dos anos 50 americanos e que agora acreditam que corremos novamente risco de nos tornarmos tudo foice e martelo. Se você, que se pinta como um cara informado, do bem e adora desfilar sua lógica entre copos de cerveja tivesse afim MESMO de entender o mundo, essa é a primeira coisa que você pararia de repetir que nem um papagaio treinado por um louco. Mas isso é outra discussão.

A realidade é que amanhã todos vamos, livremente, apertar botões pra decidir qual é a sociedade que a gente quer, com direito de votar em A ou B, como fazemos há míseros 30 anos.

Só quero terminar te pedindo pra refletir que em nenhuma das últimas 7 ou 8 vezes você foi votar com a pulga atrás da orelha por não saber se pode ser a última vez que você vai fazer isso, mesmo durante o tal governo comunista que o pessoal conta pra gente. Você também não tinha dúvidas se durante os próximos anos vai poder criticar o governo que você escolher livremente, caso ele te decepcione, se você vai poder questionar porque seu salário não aumenta mas seu chefe continua trocando de carro anualmente ou se você vai poder se expressar livremente sem correr o risco de apanhar.

Mesmo que sua escolha seja em defesa de um bem maior e contra tudo isso que está aí, seja honesto com você mesmo e reflita sobre qual bem maior você tem além da sua própria humanidade.

Eu sempre vou preferir a liberdade pra discordar do que a obrigação de concordar.

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De volta pro meu aconchego (?)

Estou, oficialmente, forçando-me a escrever de novo e mais.

Não sei sobre o que. Não sei a periodicidade. Não sei por quanto tempo.

Mas preciso escrever pra viver melhor. A cabeça não dá mais conta de guardar toda a informação gerada diariamente nesse mundo cada vez mais retardado.

E eu não tenho mais condições de não dizer algumas coisas que eu ando pensando sobre as dores, alegrias e loucuras de (e do) ser humano.

E lá vamos nós, novamente. Espero que não seja promessa vazia em tempos de eleições obscuras.

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O cansaço tingido de espanto

Já perdi a conta de quantas vezes postei esse trecho do Camus em todas as versões de blog que eu tive, mas ele nunca deixa de ser relevante ou atual.

Aos poucos vamos deixando de viver para sobreviver; sobreviver num caos diário buscando sentido para as mecanidades da vida e aliviar a fadiga mental que cresce.

E não cabe a ninguém mais, além de nós mesmos, escalar pra fora desse caos.


Ocorre que os cenários se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o “porquê” desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. “Começa”, isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a consequência: suicídio ou restabelecimento. Em si, o cansaço tem alguma coisa de desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. Essas observações não têm nada de original. Mas são evidentes: por ora isso é suficiente para a oportunidade de um reconhecimento sumário das origens do absurdo. A simples “preocupação” está na origem de tudo.

“O mito de Sísifo”, Albert Camus

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E aí, escrevo o que?

Sempre que eu abro o blog pra tentar escrever algo, inevitavelmente me vem à mente um trecho do Guardador de Rebanhos, do Alberto Caeiro (que eu tenho quase certeza que já postei aqui):

O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

Porque escrever é dizer o que você pensa sobre qualquer coisa que seja – e às vezes eu penso tanto que, no final, não penso nada; acho tanta coisa que nem sei o que eu acho direito; quero dizer tanto mas não sei nem por onde começar.

Escrever é libertador demais, mas é, também, um tormento quando passa o trem do raciocínio, você não consegue entrar nele e observa as idéias passando pela estação.

Mas vamos lá. Mudei até o layout pra ver se muda a postura. Agora vai.

Vai?

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Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro…

Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro…
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.

s.d.
Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. – 39.

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Carpe Diem, meus amigos

Se o caro leitor já ouviu falar de Dream Theater provavelmente já ouviu falar também que eles são “uma banda muito técnica que só músico gosta; não tem feeling nenhum e é chato de ouvir”. Bom, não deixa de ser meio verdade – um pouco exagerado, mas um pouco verdade.

O DT, pra quem não conhece, é uma banda americana conhecida por ser pioneira do gênero “prog metal”, que mistura elementos do progressivo clássico (Yes, Genesis, Floyd, Rush etc) com elementos de metal tradicional. Justamente por ter sua base no progressivo, é uma banda com arranjos extremamente técnicos e músicas, em geral, longas.

Tá, e daí? Explico.

Achei um vídeo no YouTube deles tocando os 20 e tantos minutos de uma das músicas mais emblemáticas de toda a história da banda: “A Change of Seasons“. A apresentação traz um Dream Theater mais preciso e maduro do que nunca (o que, sinceramente, andou se perdendo) e um LaBrie impecável como há muito eu não via. Só que esses ainda não são os motivos de eu ter escrito esse texto.

Na época do colégio (anos 2000) eu era ultra-viciado nesses caras e meu objetivo, como aspirante a guitarrista, era atingir esse nível de excelência, tanto na execução quanto na composição desse tipo de som. E eu conheci um baterista que tinha, de certa maneira, o mesmo objetivo – excetuando-se o fato de que ele era infinitamente melhor que eu, de partida. Criamos uma amizade absurdamente próxima, forte, verdadeira e baseada na paixão pela música como um todo e, sobretudo, pelos som de bandas como DT, Rush e derivados.

E éramos tão idiotas – no bom sentido – que passávamos horas sentados pelas escadarias da ETELG, por exemplo, “cantando os intrumentos” das músicas e fazendo air drum e air guitar como se fôssemos mentalmente desequilibrados. Talvez fôssemos. Quando juntavamo-nos efetivamente pra tocar, não era diferente. Podíamos não conseguir executar todos os sons como gostaríamos, mas não importava: naquele momento éramos os melhores músicos do mundo.

E esse cara tinha uma banda que tinha acabado de ficar sem guitarrista. Ele fez um belo dum lobby pra eu entrar na banda e, no final, acabei sendo aceito. Banda essa que também teria um papel importantíssimo na minha banda e cuja história merece post próprio…

Perdido ainda? Agüenta mais um pouquinho, por favor. 🙂

Uma das músicas que mais falávamos sobre, discutíamos a estrutura e nos maravilhávamos com a composição era a própria A Change of Seasons. Uma das minhas memórias mais vívidas do passado é justamente um dia à tarde, na ETELG, sem aula, em que ficamos sentados nas escadarias internas do Bloco 2 (um dos prédios da escola) cantarolando os 23:09 da música, nota por nota, pausa por pausa.

Foi mágico, foi impecável, foi besta, foi real.

Em 2005 esse cara, infelizmente, nos deixou por conta de uma tragédia dessas que não fazem o menor sentido e meu mundo (e o de muitas, mas muitas pessoas mesmo, também) ficou mais cinza. E só escreverei uma linha sobre isso – uma linha que foi bem difícil de escrever, inclusive. Seguindo…

Aí hoje, sem querer, lendo matérias sobre música acabo caindo nesse vídeo e começo a ver sem muita expectativa. O “feeling que o DT não tem” me dá um tapa na cara nos primeiros minutos e o nó na garganta vem. Há muito tempo não ouvia (e via, nesse caso) um som que trouxesse tantas memórias e enchesse meus olhos de lágrimas no meio do trabalho; um som que eu tinha esquecido o quão representativo e forte é pra mim; um som que, ironicamente, trata justamente dessa inconstância e efemeridade da nossa vida, da nossa própria mudança de estações.

Como diz mais do que apropriadamente o trecho do poema “To The Virgins, to Make Much of Time”, do poeta inglês Robert Herrick, poema este que ficou famoso no filme Sociedade dos Poetas Mortos e foi usado para dar suporte ao tema da música:

Gather ye rosebuds while ye may,
Old Time is still a-flying;
And this same flower that smiles today
To-morrow will be dying.

A vida dá e tira, as coisas chegam e vão, tudo é movimento, tudo é começo e fim. A gente precisa aproveitar a vida e suas coisas boas com intensidade e paixão, pois é isso que nos dá sentido.

E a você, André, onde você estiver espero que esteja compartilhando sua alegria, simplicidade e pureza com todos a seu redor. Você faz uma falta absurda aqui, mas sou extremamente grato por ter convivido com você o tempo que convivi – e tenho certeza que você olha pela gente o tempo todo e se diverte com o pouco de você que ficou em cada um de nós.

É isso.

Ah, e ouve lá o som. Vale a pena, sobretudo se acompanhar com a letra.

Abraços.

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Força, Chape. Muita força.

imageEu não sei muito bem o que escrever – mas não consigo ficar sem fazê-lo.

Estou acompanhando tudo o que posso desde hoje cedo, quando soube da terrível tragédia com o avião que transportava a Chapecoense.

É dolorido.

O impacto do ocorrido é tamanho que, confesso, sinto como se tivesse perdido alguém extremamente próximo a mim; aquele nó na garganta que cresce a cada linha de notícia lida, a cada manifestação solidária dos mais diversos lados – uma avalanche de consternação e incompreensão.

Destino? Tragédia? Azar? Sei lá. Mas também não importa muito.

Aconteceu, infelizmente, aconteceu.

A maneira como se deu a classificação contra o San Lorenzo, o êxtase ao fim do jogo, o protagonismo da Chape nos últimos anos é o que vai ficar, é o que precisa ficar. Assim como a emoção da entrevista do goleiro Danilo, no vestiário, feita por Vitorino Chermont e o êxtase da narração de Deva Pascovicci (ambos, também, vítimas desse acidente) da defesa do mesmo Danilo, também vai ficar.

Cada vez mais nos distanciamos de nossa humanidade e nos afundamos numa sociedade egoísta e simplista. Que com este colossal choque de realidade, saibamos reavaliar o que realmente importa e quem realmente importa na nossa vida.

Força, aos familiares dos jogadores, dos jornalistas e dos tripulantes deste fatídico vôo.

Que Deus os abençoe e os guie.

Imagem topo: Fox Sports Brasil

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Solidão a 4 Mãos

Dentre as coisas que mais me encantam na Bru, sua sensibilidade é uma das mais incríveis. E essa sensibilidade salta aos olhos no poema abaixo, que tive o prazer de ajudar com algumas linhas, mas cujo tema e emoção latente são inteiramente dela.

E sim, puxo saco e pago pau pra ela MESMO. <3 🙂

Amo você, gatinha!


Estar sozinho é o se acompanhar
Se fazer companhia sem querer
Sem querer olhar-se no espelho e talvez se desgostar
Gostar ou não do que os olhos de quem vê, vê.
Se não desviar, gostar
Sorrir pro que se vê
Se satisfazer pela janela do que se sente e traz
Trazer a plenitude do que se gosta e é
Ser talvez tudo aquilo que mais admira e se admirar
Ou chorar
Por preferir se esquivar do que vê
Por não se querer
Por não se acompanhar
E de pouco acompanhar, se perder
Se perder sozinho, se ensimesmar
E, mesmo não conseguindo gostar
Acabar por sozinho estar
E sozinho, afinal, ter de ficar

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Falaram-me os homens em humanidade

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

 

s.d.
Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. – 336.

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A Zumbilândia é aqui

Sempre lembro desse trecho do Camus, quando fico brisando sobre a minha vida corporativa (?) do dia-a-dia.

Despertar é necessário, de fato. Ou é isso ou é deixar São Paulo vencer no seu plano de zumbificar pessoas.

Abs

Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o “por quê” e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. “Começa”, isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência. Ela o desperta e provoca sua continuação. A continuação é um retorno inconsciente aos grilhões, ou é o despertar definitivo. Depois do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento.

Albert Camus, O Mito de Sísifo

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