Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Category: Reflexões (page 1 of 2)

O cansaço tingido de espanto

Já perdi a conta de quantas vezes postei esse trecho do Camus em todas as versões de blog que eu tive, mas ele nunca deixa de ser relevante ou atual.

Aos poucos vamos deixando de viver para sobreviver; sobreviver num caos diário buscando sentido para as mecanidades da vida e aliviar a fadiga mental que cresce.

E não cabe a ninguém mais, além de nós mesmos, escalar pra fora desse caos.


Ocorre que os cenários se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o “porquê” desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. “Começa”, isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a consequência: suicídio ou restabelecimento. Em si, o cansaço tem alguma coisa de desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. Essas observações não têm nada de original. Mas são evidentes: por ora isso é suficiente para a oportunidade de um reconhecimento sumário das origens do absurdo. A simples “preocupação” está na origem de tudo.

“O mito de Sísifo”, Albert Camus

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Força, Chape. Muita força.

imageEu não sei muito bem o que escrever – mas não consigo ficar sem fazê-lo.

Estou acompanhando tudo o que posso desde hoje cedo, quando soube da terrível tragédia com o avião que transportava a Chapecoense.

É dolorido.

O impacto do ocorrido é tamanho que, confesso, sinto como se tivesse perdido alguém extremamente próximo a mim; aquele nó na garganta que cresce a cada linha de notícia lida, a cada manifestação solidária dos mais diversos lados – uma avalanche de consternação e incompreensão.

Destino? Tragédia? Azar? Sei lá. Mas também não importa muito.

Aconteceu, infelizmente, aconteceu.

A maneira como se deu a classificação contra o San Lorenzo, o êxtase ao fim do jogo, o protagonismo da Chape nos últimos anos é o que vai ficar, é o que precisa ficar. Assim como a emoção da entrevista do goleiro Danilo, no vestiário, feita por Vitorino Chermont e o êxtase da narração de Deva Pascovicci (ambos, também, vítimas desse acidente) da defesa do mesmo Danilo, também vai ficar.

Cada vez mais nos distanciamos de nossa humanidade e nos afundamos numa sociedade egoísta e simplista. Que com este colossal choque de realidade, saibamos reavaliar o que realmente importa e quem realmente importa na nossa vida.

Força, aos familiares dos jogadores, dos jornalistas e dos tripulantes deste fatídico vôo.

Que Deus os abençoe e os guie.

Imagem topo: Fox Sports Brasil

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Falaram-me os homens em humanidade

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

 

s.d.
Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. – 336.

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A Zumbilândia é aqui

Sempre lembro desse trecho do Camus, quando fico brisando sobre a minha vida corporativa (?) do dia-a-dia.

Despertar é necessário, de fato. Ou é isso ou é deixar São Paulo vencer no seu plano de zumbificar pessoas.

Abs

Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o “por quê” e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. “Começa”, isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência. Ela o desperta e provoca sua continuação. A continuação é um retorno inconsciente aos grilhões, ou é o despertar definitivo. Depois do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento.

Albert Camus, O Mito de Sísifo

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Todos somos um pouco como Sísifo

Chega um momento na vida (ou vários momentos, pra ser sincero) que a gente se sente que nem o Sísifo, naquele mito grego: rolamos nossa pedra pra cima do morro com sufoco e, como se uma força externa começasse a agir, a pedra volta sozinha lá pra baixo e temos que começar tudo de novo. O fato é que a vida é um pouco rolar a pedra morro acima dia após dia; a pedra é um pouco de tudo, o trabalho, as relações pessoais, as contas no banco, a revisão do carro, a renovação da CNH, o trem cheio e por aí vai.

A gente se acostuma, é verdade. De alguma maneira sabemos que não tem muito o que fazer, a não ser fazer. E, pra ser sincero, diferentemente de Sísifo, cujo trabalho repetitivo e inglório era sua punição diária, no nosso caso normalmente há uma recompensa em cima do morro, seja a vista, seja uma árvore pra sentar à sua sombra.

Na minha opinião, não há problema em ter que rolar essa pedra dia após dia – a pedra são nossos desafios e objetivos e ninguém além de nós pode rolá-la; não se pode terceirizar esse trabalho, como muitas vezes tentamos fazer com coisas que não queremos resolver.

A questão é que chega um ponto em que precisamos mudar a pedra, a maneira ou o caminho que usamos pra levá-la morro acima. Chega um ponto em que você se sente rolando a pedra e não obtendo nenhuma recompensa ao fim (igualzinho ao mito) e, em pessoas ansiosas como eu, isso gera um senso urgente de mudança e medo. E como algumas mudanças não dependem apenas da gente, normalmente o medo vira uma nuvem pesada de chuva sobre o caminho – a pedra parece mais pesada, o caminho mais escorregadio e você acredita que, a qualquer momento, vai escorregar e ser esmagado.

Mas, enquanto pudermos vislumbrar o alto do morro e lembrar da sombra ao pé da árvore ou da ampla e limpa vista, a pedra nunca será mais pesada que nossa determinação em levá-la até o topo.

Às vezes, todos somos um pouco como Sísifo. E isso não é ruim.

Abraços.

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A vida é uma lata de biscoitos

– Pense na vida como uma lata de biscoitos.

Depois de menear a cabeça várias vezes, olhei para o rosto de Midori. 

– Talvez seja por eu não ser muito inteligente, mas às vezes não consigo entender nada do que você diz. 

– Numa lata de biscoitos há vários tipos: de alguns a gente gosta e de outros não gosta muito, não é? Se comermos primeiro todos os biscoitos de que gostamos, no final só sobram os de que não gostamos muito. Sempre penso nisso quando acontece alguma coisa dolorosa na minha vida. Se faço alguma coisa que não me agrada agora, as coisas se tornam mais fáceis depois. Por isso digo que a vida é uma lata de biscoitos.

“Norwegian Wood”, Haruki Murakami

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Sobre o silêncio

Acontece que o silêncio,
Se não bem apreciado e compreendido,
(E não só se pode fazê-lo, como deve-se)
Pode se tornar facilmente
Um ensurdecedor estampido

Alexandre Flávio, Junho 2015

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Uma após uma as ondas apressadas

Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva espuma
No moreno das praias.
Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas.
Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.
Só uma vaga pena inconsequente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.

23-11-1918
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). – 78.

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Alma Não Tem Cor

E não só cor.

Não concorda? www.reclameaqui.com.br

Abs


 

Alma não tem cor
Porque eu sou branco
Alma não tem cor
Porque eu sou negro
Branquinho, neguinho
Branco, negon
Alma não tem cor
Porque eu sou branco
Alma não tem cor
Porque eu sou jorge mautner
Percebam que a alma não tem cor
Ela é colorida
Ela é multicolor
Azul, amarelo, verde, verdinho, marrom
Cê conhece tudo, cê conhece o reggae
Cê conhece tudo né, cê só não se conhece

Karnak

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Ansiedade, parte 2

A minha ansiedade é uma coisa tão filha da puta que eu fico ansioso até pra escrever um texto sobre ansiedade. Como vou abordar o tema, se uso exemplos, se não uso, se reclamo, se acho um ponto de vista positivo… tá louco.

Enfim.

Ser ansioso é uma porcaria, meu caro. Mas como tudo tem um lado bom, de uns tempos pra cá venho tentando canalizar a ansiedade de uma maneira mais produtiva (vide este post aqui, onde tento ter uma visão romântica da ansiedade), tipo reaproveitar água da chuva em tempos de raciona… ops, desculpa, restrição hídrica.

Vou te falar que não é fácil e que o caminho é longo, o que gera mais ansiedade (é tipo um ciclo sacana. Certeza que alguém fica rindo disso de alguma sala de controle da vida humana). A ansiedade, por mais que não pareça, é um treco sério que mexe muito com a gente. Quem é ansioso sabe a força que este sentimento tem para nos assustar e, às vezes, nos deixar travados de medo.

O que não podemos é nos deixar vencer, deixar-nos entregar e deixar essa ansiedade virar uma coisa mais séria, um medo insano de arriscar, um medo de movimentar-se e evoluir – temos que nos esforçar pra sempre nos mantermos no controle da parada.

 

O lance é tentar utilizar a tua ansiedade pra ir em busca das coisas, girar a roda da vida, sabe? É tipo ganhar um super-poder e usá-lo pro bem, ou algo do gênero. Pra mim, trabalhar a ansiedade não é querer se livrar dela porque, combinemos, quem nasce ansioso possivelmente vai passar o resto da vida sendo assim; pra mim, trabalhar a ansiedade é saber como utilizá-la, quando ignorá-la, quando respeitá-la…

Até escrever um texto meio desabafático no próprio blogue é uma forma de apertar o botão de descarregar um pouco essa ansiedade.

Sou ansioso pra diabo, porque tudo o que eu mais almejo na vida é ser cada vez mais feliz – e quem não fica ansioso por ser feliz? 🙂

Abs

 

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