Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Category: Poemas (page 1 of 3)

Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro…

Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro…
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.

s.d.
Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. – 39.

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Solidão a 4 Mãos

Dentre as coisas que mais me encantam na Bru, sua sensibilidade é uma das mais incríveis. E essa sensibilidade salta aos olhos no poema abaixo, que tive o prazer de ajudar com algumas linhas, mas cujo tema e emoção latente são inteiramente dela.

E sim, puxo saco e pago pau pra ela MESMO. <3 🙂

Amo você, gatinha!


Estar sozinho é o se acompanhar
Se fazer companhia sem querer
Sem querer olhar-se no espelho e talvez se desgostar
Gostar ou não do que os olhos de quem vê, vê.
Se não desviar, gostar
Sorrir pro que se vê
Se satisfazer pela janela do que se sente e traz
Trazer a plenitude do que se gosta e é
Ser talvez tudo aquilo que mais admira e se admirar
Ou chorar
Por preferir se esquivar do que vê
Por não se querer
Por não se acompanhar
E de pouco acompanhar, se perder
Se perder sozinho, se ensimesmar
E, mesmo não conseguindo gostar
Acabar por sozinho estar
E sozinho, afinal, ter de ficar

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Falaram-me os homens em humanidade

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

 

s.d.
Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. – 336.

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Poema em linha reta 

A atualidade dos poemas do Álvaro de Campos chega a assustar… 


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

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O Senhor e o andador

(Imagem: rodrigospilla.wordpress.com)

Com um andador, subia minha rua, um pequeno senhor.
Passos sofridos, difícieis e doloridos.
No semblante, era visível sua frustração.

A cada passo, um suspiro e uma olhada no horizonte –
o que outrora era perto, hoje parecia inalcançável;
e certamente, as estripulias de moleque, ocupavam sua mente

Mas ele seguiu conquistando cada centímetro,
até que, em seu portão apoiou, e, finalmente, descansou
E, para o céu de uma tarde amarela, ergueu seus olhos como em agradecimento.

E de repente todas as minhas angústias pareceram ridículas.

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São Paulo I

​Respira –
São Paulo respira
Poluição;
São Paulo não respira.

Vive –
São Paulo vive
Trabalho;
São Paulo não vive.

A gente respira e vive
São Paulo

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Esta velha angústia

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que…,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos
Estou assim…

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

16-6-1934
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 54.

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Sobre o silêncio

Acontece que o silêncio,
Se não bem apreciado e compreendido,
(E não só se pode fazê-lo, como deve-se)
Pode se tornar facilmente
Um ensurdecedor estampido

Alexandre Flávio, Junho 2015

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Uma após uma as ondas apressadas

Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva espuma
No moreno das praias.
Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas.
Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.
Só uma vaga pena inconsequente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.

23-11-1918
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). – 78.

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Essa noite ventou muito

Essa noite ventou muito.
Vento que assobia melodias nas frestas da janela;
Que agita os galhos e rodopia as folhas,
Que derruba os lixos e assusta os gatos,
Que escolhe onde quer que caia a chuva,
Que se impõe sobre todas as coisas –
Que sopra a vida adiante.

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