Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

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Terceirizando

O resultado da tal pesquisa sobre estupro – ou intenção de – não me surpreendeu. E não me surpreendeu por uma coisa muito mais simples que achar que o mundo é machista: aplicamos, cada vez com mais intensidade, o mecanismo da terceirização da culpa.

Dizer que a culpa de um estupro é o fato da mulher estar usando uma roupa sensual e não do cidadão não conseguir manter suas vontades dentro das calças é muito mais fácil do que admitir o simples fato de que a culpa é dele, de que ele quis ir pra cima da mulher e assediá-la fortemente, de que ele não sabe como abordar uma mulher, conquistá-la e levá-la pra cama com méritos próprios.

Desculpem-me, mas nunca vou admitir coisas como “ahh, mas se ela tá mostrando os peitos eu não tenho culpa de não me controlar”, como andei lendo por aí. Tem sim, meu velho, tem sim. Quer dizer, então, que se sua mãe, tia ou irmã aparecerem de biquíni na sua frente você vai pra cima delas? Não vai, né? Então não é um problema de controlar seus instintos… não? E não me venham entrar em argumentações psicológicas aqui, ok?

(Ah, e os rapazinhos que apareceram com ameaças de estupro às moças que manifestavam contra o resultado das pesquisas já são outra questão, que podemos abordar outro dia. Aqui não é terceirização de nada não – é violência pura e simples misturada com necessidade de afirmação… enfim, segue.)

E eu falo da terceirização da culpa porque isso tem acontecido cada vez com mais freqüência em todos os setores da sociedade brasileira. Vejam, é fácil dizer que o problema da corrupção no Brasil é dos políticos e não sua, que compra DVD do Office na Santa Ifigênia; culpar o São Paulo pela desclassificação do Corinthians e não o próprio Corinthians, que perdeu 98765 jogos seguidos; ou ainda dizer que a culpa da obesidade infantil é da Coca-Cola e da Hersheys e não de pais que não ensinam seus filhos a comer direito.

Somos cada vez mais covardes. Não assumimos nada, afinal, a culpa é nossa e colocamos em quem quisermos, não é? E se não assumimos nossa parcela de culpa nas coisas, nada muda, amigos.

Não sou sociólogo, filósofo ou o que o valha, mas observo a vida da minha maneira e tenho minhas opiniões. Espero que faça sentido pra alguém.

Abs.

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E, na Tabacaria, começo a semana.

Álvaro de Campos – sempre preciso.

        TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

 

Álvaro de Campos, 15-1-1928

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Uma pequena nota sem motivo, ou “Coca Zero me dá barato”.

Um dos textos mais legais – e simples – que eu já escrevi, escrevi no Facebook, mesmo tendo este blogue. Para fazer justiça, lá vai.

A fantástica e caótica Av. Paulista me traz muitas recordações. Foi aqui que, há quase exatamente 9 anos, comecei minha jornada neste igualmente fantástico e caótico mundo da publicidade online. A Globo.com abria suas portas para um jovem “estudante de Letras”, que por sua vez, precisava decidir, de uma vez por todas, se seguia carreira acadêmica ou se arriscaria ter de explicar dia sim, dia não “como a Netshoes sabe que eu quero comprar um Nike se eu não contei nem pra minha mãe”. 

De certa forma, esses dois mundos teoricamente opostos se cruzaram na minha vida. Há um que de acadêmico no nosso trabalho, não há? Assim como tudo que envolve tecnologia, todo dia há um sistema novo, uma solução nova, uma empresa nova – e cabe a nós descobrir como tudo funciona e passar o conhecimento adiante.

Obrigado a todos que me ajudaram nesta jornada até aqui – certamente são muito mais dos que o que tentaram, sem sucesso, atrapalhar. Ainda há muito que se fazer, melhorar e, obviamente, aprender. 

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Heterônimos, pseudônimos

Almada Negreiros - Retrato de Fernando Pessoa - 1964

Almada Negreiros – Retrato de Fernando Pessoa – 1964

Devia ser um barato ser o Fernando Pessoa.

Sempre dizem que das duas, uma: ou o Pessoa era um gênio, e sabia disso, ou era esquizofrênico e, efetivamente, vivia dezenas (talvez centenas) de vidas diferentes. Mas o que isso, de fato, importa no final?

Tive um professor na faculdade que  sempre dizia que, por mais difícil que seja, não podemos deixar que a vida pessoal do escritor vire parâmetro principal de análise de suas obras. E acho que é bem por aí. É óbvio que as experiências vividas pelo escritor fazem parte de seus textos, assim como os músicos são influenciados pelo que – e por quem – ouvem, mas daí a começar a ler um determinado autor tendo por base que ele “era negro, pobre e tuberculoso” ou “não mantinha residência fixa em lugar nenhum“, é outra coisa.

Se o Pessoa foi, ou não, esquizofrênico, o brilhantismo dos seus textos e sua absurda variação estilística segue lá – e continua sendo um deleite, para pessoas como eu, imaginar que Pessoa fez com que Caeiro, Reis e Campos se conversassem… acho isso demais, e ponto. E tem gente que critica dizendo que isso é fugir da realidade. E daí? É um problema? De certa forma, numa análise fria e amadora, os livros não são uma forma pra o leitor sair da tal realidade e entrar num mundo completamente diferente e viver, por extensão, outra vida?

Hoje em dia é muito difícil você criar pseudônimos, heterônimos e outros ônimos por aí. Sempre tem alguém que passará o dia vasculhando a internet pra descobrir algo sobre o autor e, fatalmente, descobrirá que ele é outro e não um, sabem? Vejam a tal Rowling, que lançou livro sob um pseudônimo e quase que instantaneamente todos já sabiam que ela não era ela, ou era… sei lá. Aí bate a dúvida: as pessoas leram o livro novo porque queriam ler, ou porque “era o novo livro da autora do Harry Potter”? Jamais saberemos, como diria a Erika.

Devia ser um barato ter um pseudônimo/heterônimo e nunca ser descoberto.

E, sim, eu sei a diferença entre os dois. 🙂

É isso.

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Do debate à voadora.

Os blogs, redes sociais etc trouxeram uma possibilidade legal de “criar conversações”, compartilhar conteúdo e opinião. Você conecta, publica um texto ou comenta uma notícia e compartilha sua opinião com o mundo. Bacana, né? É, mais ou menos.

A questão é que se criou uma coisa muito chata: uma galera que, em geral, não concorda com você, lê o seu texto em busca de falhas, erros, para te atacar e, de certa forma, empurrar a opinião própria goela abaixo, coerentemente ou não. Reforço: cada vez mais não se procura o debate, procura-se a agressão verbal; procura-se desconstruir uma ideia apenas como um passatempo, normalmente sem lógica e, certamente, sem ganho algum para a discussão em si.

Por quê? Porque, de repente, todos viraram especialistas de tudo. Não importa se você passou 5 anos lendo Ulises, do Joyce, pra fazer uma análise crítica do livro – um zé mané vai ler o teu texto, ir à Wikipedia e vomitar algo só pra te sacanear. E sim, é sacanear mesmo. Novamente: não há o debate, há apenas desconstrução, mal e porcamente feita. E gente nervosa – tipo este que vos escreve – terá gastrites por noites e noites bolando uma resposta.

É provável que sempre tenha sido assim; é provável que quando Hesíodo estava lá, cantando a Teogonia, algum cidadão levantou a voz e interpelou o poeta só pelo prazer de provocar o simples bate-boca, ou veio com o famoso irrefutável argumento de “você não sabe de nada. Não foi assim”. Entre outras coisas, a internet ajudou a popularizar isso – e cada vez mais você vê gente que parece ganhar a vida pulando de texto em texto procurando pelo em ovo.

O fato é que é dever do escritor escrever e preparar-se para o debate… ou para a voadora.

Abraços

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No meio do inverno, eu aprendia enfim que havia em mim um verão invencível.

CAMUS, Albert – O Exílio e o Reino

 

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