Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

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Falaram-me os homens em humanidade

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

 

s.d.
Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. – 336.

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O amor é uma companhia

Para Bruna.


O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

10-7-1930
“O Pastor Amoroso”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). – 100.

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Eu nunca guardei rebanhos

Alberto Caeiro, (8-3-1914)

I

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estacões
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. Saúdo-os e desejo-lhes sol
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar, E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

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Vale a pena querer ser protagonista na história dos outros?

Quando, no primeiro ano da faculdade, meu professor de Língua Portuguesa José Marinho – um dos melhores professores que já tive – leu o “Se Te Queres Matar” do Álvaro de Campos, dois trechos me chamaram atenção e, até hoje, ficam rodopiando na minha cabeça de tempos em tempos. São eles:

Trecho 1

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

Trecho 2

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Na minha opinião, mais do que modesta, Campos acerta em cheio. Temos uma incrível necessidade de sermos protagonistas na história de vida dos outros (todos os outros!) e, mais que isso, de achar que seremos pessoas insubstituíveis e inolvidáveis. É claro que no poema o autor extrapola o argumento e se utiliza da idéia da morte e de uma pesada insignificância do ser humano para sustentar tal arugmento; porém, acho que dá pra traçar um paralelo com o dia a dia de “gente viva”.

Às vezes pessoas se mudam pra outras cidades e ficamos desesperados com a perspectiva de que, com o tempo, elas poderão nos esquecer; ou mesmo quando você se forma no colégio e teme pelo futuro daquelas amizades incríveis que você construiu. Bem, realmente poderão nos esquecer e as amizades poderão se findar, mas o que se há de fazer? Você fez a sua parte marcando a vida destas pessoas, não? Então, vida que segue.

Não estou aqui dizendo que é inútil tentar fazer a diferença na vida daqueles que você gosta, que você ama – muito pelo contrário: eu acho imprescindível! Mas aqui faço a ressalva que me motivou a escrever esse texto-sem-nexo-da-segunda-feira: deve-se fazer notar o seu apreço, o seu carinho por aqueles que você ama sempre que possível e, claro, desde que seja espontâneo. Mas, talvez, devamos tratar este tema com um pouco mais de leveza, afinal, é uma relação que envolve terceiros – e não temos como controlar como eles vão agir (alguns dirão infelizmente, rs).

Porém, não desista de marcar a vida daqueles que você gosta. Além da sensação incrível que isso causará em você, certamente a quantidade de pessoas que te lembrarão com carinho, ainda que esporadicamente, é bem maior do que as que te jogarão no balaio do esquecimento.

E as que te jogam no balaio do esquecimento, bem, talvez não merecessem de verdade a tua atenção.

Abs

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