Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Tag: sociedade

Falaram-me os homens em humanidade

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

 

s.d.
Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. – 336.

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Que sociedade?

Hoje, peço licença aos amigos leitores para escrever e compartilhar algo que sai um pouco do comum deste site. Obrigado. 🙂


 

We’re definitely not living in a post-racial society – and I can imagine that there are a lot of people out there wondering how much of a society we’re living at all

Jon Stewart

 

Vocês devem ter acompanhado a cobertura de duas mortes ocorridas nos Estados Unidos que geraram uma série de protestos e reações populares: os casos “Michael Brown”, ocorrido em Ferguson (Missouri), e “Eric Garner”, ocorrido em Staten Island (Nova York). Ambos tem em comum o fato que foram dois negros mortos por policiais brancos, além dos policiais terem sido, a princípio, inocentados de terem cometido qualquer ilegalidade ou exagero.

No primeiro caso, a “análise” do que houve é um pouco mais trabalhosa, pois é baseada nos depoimentos do policial, de testemunhas e nos resultados da perícia e afins; já no segundo, há imagens de uma câmera mostrando o que ocorreu.

Há duas grandes discussões levantadas aqui que estão gerando os protestos por todo o país, independentemente dos homens mortos serem culpados de qualquer crime ou não (roubo de cigarros/venda ilegal de cigarros, resumida e respectivamente): a reação exagerada e incompatível dos policiais e, principalmente, a questão racial. É um debate complexo, delicado e amplo e que não se difere muito do que acontece aqui no nosso país. Quantas vezes vemos casos similares aqui? Quantas vezes você – sim, você – não atravessou a rua quando notou uma pessoa negra vindo na mesma calçada que você? Quantas vezes, numa batida policial, o seu amigo negro foi o único a ser ameaçado de ir preso pelo homem responsável por nossa segurança (isso aconteceu comigo e não é historinha pra preencher meu texto, só pra constar)?

É claro que aqui estou me restringindo apenas a essa dicotomia branco/negro, mas podemos expandir essa discussão pensando, também, na camada mais pobre da nossa sociedade. É impressionante como em pleno ano 2014, ainda olhamos de maneira diferente para um moleque que vista roupas “ruins”; aliás, a própria definição de roupa boa/roupa ruim é um tanto quanto preconceituosa, prepotente e, porque não dizer, ridícula. Ou vai dizer que você nunca reparou em como seguranças de shoppings e lojas ficam quando pessoas que eles julgam potenciais marginais entram em seus estabelecimentos, ou como diariamente essas mesmas pessoas são acusadas de coisas que não cometeram?

É mais fácil acusar alguém que não pode se defender, não é? Lembram do filho do Eike Batista, que atropelou um ciclista e tal? Lembro que à época me chamou a atenção o fato de que, quem defendia o filho do empresário brasileiro, dizer que “no Brasil é errado se dar bem na vida”. É possível um debate riquíssimo só sobre essa afirmação mas, ressalto: não estou acusando nem inocentando ninguém, porém, é interessante notar o fluxo de argumentação no caso. O culpado de ser atropelado… foi o atropelado, mesmo ninguém tendo visto nada! Ninguém viu nada, mas tinham o seu culpado. É bem aquela coisa de que a culpada pelo estupro é a mulher, afinal, ela usa saia e decote e provoca isso mesmo (pausa pra vomitar).

Enfim, estou ficando prolixo… vamos às conclusões.

O racismo ainda acontece (alguém falou goleiro Aranha?) o tempo todo. Aqui, nos EUA, na Alemanha, na Lapônia… nossa sociedade ainda é preconceituosa e racista. Menos, talvez, que anos atrás, mas ainda é – e muito. Nós não entendemos a nossa sociedade, precisamos generalizar tudo e não entendemos que, às vezes, o criminoso é branco e mora nos Jardins e o cara correto é negro em mora na favela. Ou, se entendemos, selecionamos os argumentos mais convenientes na mesa do bar – quando isso é discutido na mesa do bar…

E por que resolvi escrever esse texto? Porque outro dia vi um vídeo do Jon Stewart (apresentador do programa americano Daily Show) comentando exatamente esta questão, após o policial do caso Eric Garner ter sido inocentado. Acho que ele conseguiu expor exatamente o que eu penso em relação a estas questões (neste caso, sobretudo, o lance policial branco / agredido negro) e gostaria de pedir a vocês que separem alguns minutinhos para ver o vídeo abaixo. Vale a pena.

Em tempo: agradeço imensamente à Bruna Picoli pela ajuda fundamental no desenvolvimento das idéias desse texto. Obrigado demais, Bru! 🙂

Abraços

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Terceirizando

O resultado da tal pesquisa sobre estupro – ou intenção de – não me surpreendeu. E não me surpreendeu por uma coisa muito mais simples que achar que o mundo é machista: aplicamos, cada vez com mais intensidade, o mecanismo da terceirização da culpa.

Dizer que a culpa de um estupro é o fato da mulher estar usando uma roupa sensual e não do cidadão não conseguir manter suas vontades dentro das calças é muito mais fácil do que admitir o simples fato de que a culpa é dele, de que ele quis ir pra cima da mulher e assediá-la fortemente, de que ele não sabe como abordar uma mulher, conquistá-la e levá-la pra cama com méritos próprios.

Desculpem-me, mas nunca vou admitir coisas como “ahh, mas se ela tá mostrando os peitos eu não tenho culpa de não me controlar”, como andei lendo por aí. Tem sim, meu velho, tem sim. Quer dizer, então, que se sua mãe, tia ou irmã aparecerem de biquíni na sua frente você vai pra cima delas? Não vai, né? Então não é um problema de controlar seus instintos… não? E não me venham entrar em argumentações psicológicas aqui, ok?

(Ah, e os rapazinhos que apareceram com ameaças de estupro às moças que manifestavam contra o resultado das pesquisas já são outra questão, que podemos abordar outro dia. Aqui não é terceirização de nada não – é violência pura e simples misturada com necessidade de afirmação… enfim, segue.)

E eu falo da terceirização da culpa porque isso tem acontecido cada vez com mais freqüência em todos os setores da sociedade brasileira. Vejam, é fácil dizer que o problema da corrupção no Brasil é dos políticos e não sua, que compra DVD do Office na Santa Ifigênia; culpar o São Paulo pela desclassificação do Corinthians e não o próprio Corinthians, que perdeu 98765 jogos seguidos; ou ainda dizer que a culpa da obesidade infantil é da Coca-Cola e da Hersheys e não de pais que não ensinam seus filhos a comer direito.

Somos cada vez mais covardes. Não assumimos nada, afinal, a culpa é nossa e colocamos em quem quisermos, não é? E se não assumimos nossa parcela de culpa nas coisas, nada muda, amigos.

Não sou sociólogo, filósofo ou o que o valha, mas observo a vida da minha maneira e tenho minhas opiniões. Espero que faça sentido pra alguém.

Abs.

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