Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Não tem nada glamuroso em viajar a trabalho

Eu cumpri a minha promessa do Twitter, mas não publiquei esse texto 1 semana atrás quando terminei ele. Esse é um dos meus grandes problemas quando penso sobre escrever: eu fico revisando, revisando, revisando e sempre adio a postagem. É a constante busca pela perfeição que não existe. É como nessa cena do De Volta Pro Futuro (possivelmente meu filme favorito de todos os tempos) na qual o pai do Marty diz “Ah, não não não, eu nunca deixo ninguém ler minhas histórias. E se eles não gostarem? E se eles disserem que não sou bom?

Mas tá aqui. Divirtam-se! Obrigado pela paciência e contem pros seus amigos, parentes, colegas de trabalho…

Se alguém dissesse pra mim que um dia eu estaria num avião indo a trabalho pros Estados Unidos eu teria uma crise de riso daquelas que a gente perde o ar. Mas cá estou eu: 15 anos depois começo esse texto em um avião a caminho de Dallas e termino sentado num quarto de hotel em San Jose.

E não tô escrevendo isso pra me gabar ou só como um pretexto pra dizer olha como eu sou viajandão, mas é que me peguei pensando em toda a mitologia que existe em torno dessa coisa da viagem a trabalho e resolvi escrever sobre (e porque o @crisdias compartilhou pensamentos super parecidos com os meus numa das últimas newsletters do Boa Noite Internet e isso também me deu uma inspirada).

Eu achava chique demais pessoas que viajavam a trabalho e tal. Mais do que ir pra outra cidade pra fazer uma reunião, ou tocar um projeto ou o que seja, todo o glamour e purpurina de sentar num aeroporto, pegar um café de R$40, abrir o note e zás era incrível na minha cabeça.

Quando eu fui efetivado no meu primeiro grande emprego, depois de um tempo, eu passei a ser essa pessoa e ia direto pro Rio de Janeiro. No começo era um negócio maluco, porque pensa: eu vim de uma família que ninguém nunca tinha andado de avião e o primeiro a fazer isso sou eu, um moleque de uns 20 e poucos anos indo a trabalho pro Rio. Porra, foda! E mais: depois começo a trabalhar em empresas multinacionais e passo a viajar internacionalmente! Rapaz, estourei! Venci na vida!

Nas primeiras vezes era animal, eu realmente me sentia muito importante (antes das minhas definições de importância serem atualizadas), mas depois de um tempo começou a ficar maçante e cansativo. Aí você fala isso pras pessoas e parece que você é um arrogante de merda, mas é a realidade, que é bem diferente do mito que essencialmente é glamour, curtição e visitar lugares topzera o tempo todo. Veja, algumas dessas coisas podem acontecer, mas uma viagem a trabalho pressupõe, bem, trabalho. Além de todo o estresse que é o processo de viajar você não tem exatamente passe livre pra fazer qualquer coisa a hora que bem entender, afinal, a empresa tá te “dando” esse presente porque ela espera algo em troca, certo?

É CLARO que é um baita privilégio e uma oportunidade ímpar de se conhecer lugares, culturas e afins teoricamente de graça (e dá pra fazê-lo) mas o que eu estou tentando dizer é que não existe glamour – é estressante e solitário na maioria das vezes. Infelizmente não é possível ficar fazendo rolês pelas cidades e pelas lojas porque o que te sobra é o “pós horário comercial”, que no meu caso ou eu quero comer ou ficar brisando no quarto do hotel (sobretudo quando o fuso tá arrebentando minha cabeça) e, às vezes, um dia do final de semana, que eu sempre quero aproveitar do jeito que eu bem entender.

Eu me sinto muito culpado quando alguém me sugere um passeio e eu não consigo fazer, ou pede alguma coisa e eu não compro ou ainda quando eu não consigo espremer um tempo pra comprar lembranças pras pessoas que eu gosto, mesmo sabendo que não vão me cobrar ou odiar por isso. Em um certo nível, isso é minha maneira de 1) mostrar que eu gosto e me importo com a pessoa 2) que de alguma maneira quero dividir um pouco dessa experiência com os outros que não podem estar aqui, e quando não dá certo lá venho eu me martirizando.

Não me leve a mal: eu agradeço demais por trabalhar em lugares que me proporcionam esse tipo de experiência, mas de uns tempos pra cá passei a ser menos romântico sobre viajar a trabalho. Talvez eu esteja ficando (mais) ranzinza. Talvez não, provavelmente.

De qualquer maneira, se você conhecer alguém que viaje sempre assim, não seja muito duro com essa pessoa quando ela der aquela reclamada sobre “ter que viajar de novo”, quando ela não seguir suas dicas ou ainda se não conseguir trazer alguma coisa que você pediu. 🙂

Abraços!

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Não posso querer ser nada

Antes do texto, primeiramente obrigado a todos que sugeriram temas para este humilde espaço de descarga mental. Eu sei que isso faz tipo 15 dias já, mas eu realmente estou comprometido a soltar um texto por semana (Deus ajuda eu) sobre coisas. Por favor, leiam, comentem, contem pros seus amiguinhos e zas. E, de novo, obrigado!

Agora, vamos à brisa do dia!


Como já comentei em alguns outros textos por aqui faço terapia há quase 5 anos já. Muitas pessoas me perguntam “se isso não é muito tempo e se já não passou da hora de me dar alta”. Sempre falo que não e que terapia, ao menos pra mim, é ainda algo de longo prazo; que mesmo há 5 anos lá, existem muitas coisas que eu ainda preciso levar pra discussão e tal.

E há algumas semanas eu tive mais uma prova (e uma senhora prova) disso.

Na sessão, como sempre, lá estava eu discutindo a minha eterna síndrome do impostor, como eu sempre vivo num constante estado de devedor, de eterno perdido em meio aos desafios do dia-a-dia. Começamos a entrar nesse buraco negro até que, de repente, eu parei de falar; olhando pro teto, comecei a brisar profundamente e me dei conta de uma coisa bizarra: ao contrário de muitas pessoas, eu nunca, quando criança ou adolescente, tive aquela famosa conversa sobre “o que eu queria ser quando crescer”. Eu juro que não tenho memória de conversar com ninguém sobre coisas que eu me via fazendo como adulto, do ponto de vista profissional.

E eu nem acho que é culpa de ninguém, mas eu realmente, àquela época, não olhava pra pessoas e pensava “porra, quero ser que nem ele(a) quando for mais velho”; eu tinha minhas paixões momentâneas, do tipo “quero ser jogador profissional de vôlei“, quando eu treinava 3x por semana, ou ainda “quero ser músico“, quando comecei a tocar violão ou, ainda, “quero mexer com informática“, quando conheci um computador, mas nada despertava aquele tesão a longo prazo de ser algo.

Eu só queria ter “meu dinheiro”, porque em determinado momento da vida a situação lá em casa era complicada e o que entrava no meu cérebro era muito o “preciso estudar, ser foda pra caralho – não importa no quê – e ganhar uma grana porque viver é aparentemente bem difícil”. Era uma coisa meio “eu não posso me dar o luxo de querer ser nada, eu só preciso ser algo que me sustente e devolva pra minha família tudo o que eles sempre depositaram em mim. E essa epifania foi um baita chacoalho porque a relação que eu passei a fazer foi a seguinte: “ora, se eu nunca pensei em ser especificamente nada nessa vida, como é que eu posso querer saber se eu cheguei lá” Lá onde, caceta?

Doido, né?

Eu até imagino que muitas outras pessoas no mundo nunca tiveram esse tipo de discussão durante suas formações como pessoas e tal, não quero dizer que eu sou diferentão, mas hoje é claro pra mim que, embora eu tenha indicadores externos de que conquistei coisas na vida, tanto no pessoal quanto no profissional bicho, internamente a sensação continua sendo “tô perdido, ainda falta. Vai, Alê, segue“.

Isso foi foda. Mostrou pra mim o quanto eu ainda sou uma criança na terapia que tem muito o que elaborar e como eu sou muito foda em criar problema onde não tem só pra alimentar a minha ansiedade e minha auto-inveja, ou auto-sabotagem. Com essa descoberta, por exemplo, eu posso começar a trabalhar minha mente a ser menos destrutiva e exigente no que diz respeito a mim mesmo. Óbvio que é foda e dá trabalho, mas ao menos eu tenho um ponto de partida, não estou mais no escuro.

E você, já se deu conta de algum mecanismo bizarro que você inconscientemente usa pra te sabotar?

Abs!

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O equilíbrio é uma ilusão

Semana passada, eu e a Bru estávamos brisando em um de nossos papos pós-trampo no quintal de casa sobre terapia e o dia-a-dia tentando ser pessoas mais equilibradas nesse mundo maluco que a gente vive. E eu meio que tive uma epifania.

Capa do disco "A Dramatic Turn of Events", Dream Theater

Um dos pontos centrais da minha (e, de verdade, de qualquer uma acho eu) é a busca pelo equilíbrio. Se você faz ou fez terapia eu aposto que, em algum momento, seu terapeuta te disse que “é necessário encontrar o equilíbrio para…” [complete mentalmente com seu caso específico].

Pois bem. Faz sentido e tal mas eu acho que cheguei à conclusão de que isso não existe; que o equilíbrio, da maneira que em geral temos em mente, é meio que uma ilusão.

Explico.

De acordo com o que nos é proposto, ser uma pessoa equilibrada é, basicamente, equilibrar suas ações e sensações; é viver menos nos extremos mentais da explosão e da languidez, ou seja, viver numa mediana de certa forma insossa e inofensiva, correto? E é aqui que entra minha epifania e incômodo com essa definição.

Image result for about to blowEu sou alguém que tenho como um dos principais pontos de atenção e melhora o tal do equilíbrio; tou sempre trabalhando no 8 ou no 80 da vida o que não é lá muito saudável. Desde que, portanto, comecei a entender que para ser uma pessoa melhor e mais em paz era esse proposto balanço, comecei minha cruzada em busca dele.

O problema é que eu (e talvez qualquer ser-humano vivo) somos seres que por definição não fomos criados para vivermos numa meiuca de sensações; nossa existência e nossos desejos habitam mais proximamente dos “extremos emocionais”. Não é quando estamos em êxtase, ou com muito medo, ou muito inquietos etc que normalmente nos propormos a fazer algo? E, basicamente por essa razão, passei a sofrer até um pouco mais justamente por não conseguir achar este maldito equilíbrio.

Tendo dito isso, a minha epifania besta foi a de que na real o que a gente precisa aprender é o oposto: reconhecer nossas oscilações. Uma metáfora que me ocorreu é a da escotilha de Lost (se você não assistiu o seriado, embora seja um absurdo, não se preocupe que eu explico; você também pode ver esse vídeo aqui pra ter um contexto geral ou ler este artigo com uma explicação mais detalhada).

Uma das propriedades encontradas na ilha de Lost era um bolsão de energia eletromagnética… tipo, muita energia. Os cientistas achavam que, se soubessem controlar e manipular essa parada junto com a matéria exótica que também tinha na ilha eles poderiam fazer coisas doidas com o tempo.

Obviamente tudo deu errado. Rolou um acidente e essa energia passou a precisar ser monitorada e controlada para que, essencialmente, não explodisse a parada toda. De 108 em 108 minutos, um código precisava ser digitado pra que a energia acumulada fosse liberada e tudo continuar bem no planeta (sim, no planeta).

Computador da escotilha Cisne, LOST

Finalmente, pra mim, é mais ou menos assim que eu entendo que deva (ou possa) ser nossa relação com as emoções. Basicamente precisamos ser vigilantes o tempo todo para que ela nem exploda nem se anule e pra que, quando sentirmos que estamos num nível perigoso, que possamos digitar uns códigos na nossa cabecinha e voltar a oscilar próximos à meiuca, mas nunca vivendo de maneira linear sobre ela.

E aí, faz sentido pra você?

Abraços!

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No fim da semana, um recado pra próxima

Deixo esta semana que se encerra com um objetivo pras próximas que virão. É bem verdade que já fiz essa promessa antes, mas, quem nunca teve que prometer a mesma coisas várias vezes antes de efetivamente cumprir que publique o primeiro tweet.

De qualquer maneira, anuncio:

Volto a escrever neste espaço aqui.

Alê Flávio, o fazedor de promessas

A semaninha que tirei de férias do trabalho e que pude botar, por exemplo, minha leitura em dia reforçou o quanto minha sanidade depende das letras que eu ponho na cabeça e no papel (neste caso, na tela).

Espero que vocês tenham saco de vir nessa jornada comigo, senão, afinal, pra que a fadiga?

Até lá!

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O Nada como necessidade

Hoje acordei contemplando o nada. Sentado ali, no limbo de sentimentos, tentava entender que tipo de reação é possível no vazio.

Não estou triste nem alegre, apenas não estou. É como se minha mente tivesse atingido o máximo e tenha escolhido hoje como um dia para descompressão, como os computadores que travam no meio do expediente.

Na terapia foram 50 minutos admitindo que talvez eu não tivesse nada pra dizer, ou pensar, ou elaborar. Foram voltas e voltas atrás do rabo, tentando achar a raiz de algo que é, essencialmente, ausência. Nem o 1984, que sempre chama minha atenção por ser o único romance entre dezenas de livros teóricos de psicologia me intrigou hoje.

Olhar pro nada, de maneira catatônica, parece ser a única alternativa quando sentimos essa fadiga mental. Diariamente, absorvemos mais do que queremos (e percebemos) e não processamos nem 1% disso adequadamente; em determinado momento a mente quer apenas espaço, ócio, nada.

Um brinde ao deserto existencial!

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Ideias, moléculas e água fervente

Minha cabeça é uma coleção de ideias e ideais desorganizados, caóticos como moléculas de uma chaleira d’água em fervura.

Sempre esperei a água esfriar, mas começo a achar melhor usar a água pra passar um café enquanto compartilho meus desassossegos.

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Nossa própria distopia

Sentei pra escrever um texto e vi meu último, que foi mais um apelo desesperado do que um artigo. De qualquer maneira, não deu e vivemos numa distopia digna de um filme do Aronofsky. Mas isso é tópico pra outro momento.

O que eu quero falar é sobre a nossa própria distopia; aquela que a gente cria pra gente mesmo diariamente e nem se dá conta.

Eu faço terapia há algum tempo já e uma das minhas queixas recorrentes é sobre minha dificuldade de me engajar em coisas além do meu trabalho normal diário; coisas que sempre me alimentaram mental e espiritualmente e me ajudaram a diminuir um pouco a pressão do dia-a-dia.

E a nossa muleta preferida é o tempo. “Não tenho tempo”, “não tive tempo”, “quando vou ter tempo pra isso”, tempo, tempo, tempo… E é justificável, vai. Vivemos em uma era em que somos sufocados diariamente por um excesso de informação e obrigações as quais achamos que devemos absorver e fazer algo com tudo. Só que, pra mim, esse é só um ponto (e não tão justificável).

Na minha opinião, o pior que criamos é a tal da distopia que comentei um pouco acima. Voltando ao meu exemplo pessoal: eu sempre escrevi razoavelmente bastante e, de uns tempos pra cá, praticamente parei. E por que parei? Bem, tempo pode ser um motivos, mas, a definição de expectativas num nível absurdamente alto e, em certa medida, inalcançável é o pior. Essa é a distopia, um mundo futuro criado à partir de um medo irracional de falhar.

Antes mesmo de nos propormos a fazer qualquer coisa, começamos a nos questionar se somos capazes, se temos o que é necessário, se vamos conseguir, se é relevante, se os outros vão gostar etc. Mais do que isso: é já ter definido na sua cabeça que não tem a menor condição (e razão) de fazer o que você quer e, então, pra que se dar ao trabalho de começar. Estamos sempre esperando demais de nós mesmos.

Por isso que expressões como “se você quer fazer algo é só começar” têm sua validade, mas não cobrem o cenário macro. Não é só preguiça. Não é só procrastinação. É auto-inveja, auto-estima baixa, medo puro, traumas, enfim, um conjunto de fatores que se nós mesmos não conseguirmos elencar e ter ciência deles, não sairemos nunca do lugar.

Eu ainda não achei uma solução pra mim em quase 5 anos de terapia e uns 2 de consciência desses movimentos. Eu tenho dificuldade de voltar a escrever frequentemente (notem o tempo entre um texto e outro), estou sempre pronto a providenciar desculpas pra não ler meus livros e tenho frases prontas pra não sentar e passar horas tocando guitarra

Esse texto é mais uma tentativa de desmontar a distopia por dentro, uma tentativa de contar pra outros que isso tudo existe e que é preciso admitir pra seguir.

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Eu tentei não escrever, não deu. Que não seja em vão.

[Já aviso que o texto é longo. Agradeço a leitura até o fim, de mente e coração abertos. Busquei respeitar e espero o mesmo, portanto, ódio não cabe aqui.]

São alguns meses querendo, mas evitando escrever. E tem sido bem difícil evitar essa minha paixão, sobretudo quando você vê que não existe interesse real em ler, pensar e refletir, mas, em combater, sufocar e impor – não importam os meios. Quem me conhece há algum tempo sabe como eu penso, como eu sou e o que eu acho das coisas. Eu nunca escondi e nunca tive medo de dizer, embora reconheça minha própria truculência às vezes quando, apaixonado, defendo um ponto.

Mas algumas coisas nessa vida não simples questão de opinião, muito menos de isenção.

Meu falecido avô, Sr. Oswaldo Ramos, pai da minha mãe, foi político a vida toda (do PMDB, pasmem). Ele viveu (e basicamente morreu) por isso, pela pequena vila que ele ajudou a transformar em cidade, pra levar educação pra gente pobre daquela vila, buscando as crianças no meio do nada, de carroça, pra trazê-las pra escola, porque tinha isso no sangue, porque tinha ideais e pensava além do chapéu dele. Cresci nesse meio e por diversas vezes estive por perto quando ele recebia seus aliados, adversários, os interesseiros, os admiradores, ali no quintal dele, embaixo da parreira, sempre com o cigarro de palha na boca e discutia as coisas da vida da mesma maneira com todos. Eu era muito pequeno, é verdade, mas alguma coisa ali eu certamente absorvi e guardei.

Minha mãe, por sua vez, obviamente partilhou mais ainda dessa vida política e intensa e tornou-se uma das pessoas mais interessadas e consumidora de informações que eu conheço e, consequentemente, outra influência capital durante meu amadurecimento enquanto pessoa. Os primeiros jornais que li, os primeiros programas de rádio, os primeiros assuntos que discuti vinham sempre de indicações dela (ou de coisas que ela mesma ouvia e eu por osmose passei a vida ouvindo) e, mesmo que hoje tenhamos diferenças fundamentais em algumas coisas, ela sempre será um dos meus principais modelos de debate e busca por conhecimento.

Depois, aborrecentes, é comum buscarmos nossa afirmação como “ser-pensante-e-opinador” de alguma maneira e, basicamente, saímos em busca de ídolos ao nosso redor. Gente que entendemos saberem mais que nós passam a ser modelos e, sem perceber, começamos a repetir suas próprias visões e argumentos. Porém, tudo aquilo que foi absorvido e está crescendo dentro da sua alma desde sempre ou se conflita com seus novos ídolos ou se alinha – e é nesse momento que você entende suas verdades, seus ideais e, com sorte, percebe que o mundo não é você.

E já são décadas tentando digerir esse caos – a política, a sociedade, pra mim, não começaram com textões cheios de fatos genéricos e que só servem pra provar meus pontos em redes sociais, muito menos ~militando~ em 2013, na Paulista. Mesmo buscando beber de todas as fontes que eu pudesse, foi muito, mas muito difícil entender que a vida é plural, multifacetada e complexa. É difícil também, ainda mais pra mim, admitir que não sou dono da verdade, mas, apesar de não ter interesse algum em tentar te convencer, eu não posso simplesmente abaixar a cabeça e admitir a superficialidade e fragilidade do que – com muita dor, de verdade – li, vi e ouvi nos últimos anos.

Nesse ponto do texto, certamente você já começou a entender pra onde vai essa ladainha e está me chamando de alguma coisa teoricamente ofensiva, em dúvida se essas idéias são minhas mesmo ou se são fruto de algum tipo de lavagem cerebral que eu sofri, acertei? Comunista de iPhone, petralha, esquerdopata e socialista de caviar passam pela sua cabeça, aposto. Deve, também, estar pensando que estou sendo pago, que só quero surfar algum tipo de onda populista ou, ainda, que minha hipocrisia não tem tamanho porque certamente é muito fácil esse idealismo (afinal, ideologia só existe no lado oposto ao seu) por detrás de um notebook. Não condeno, mas peço que siga lendo – continuo sem garantir que você vai gostar, no entanto.

Eu não faço parte de nenhuma minoria, muito pelo contrário. Sempre tive uma família tradicional brasileira bem estruturada, condição financeira razoavelmente estável e, mesmo quando passamos por perrengues lá em casa, nunca foi nem 0,5% do que a maior parte da população brasileira sofre, afinal, ficar sem Trakinas uma semana não é passar fome. Eu, junto com outras pessoas, poderia me dar o luxo de não me preocupar com quem ganha ou perde uma eleição, já que, proporcionalmente, serei um dos menos afetados. Mas eu me preocupo porque, repito, o mundo não sou eu. E olha só, eu entendo e defendo a pluralidade desse mundo (disse isso ali em cima, não disse?) e, por mais que talvez às vezes eu precise engolir seco e fique puto com argumentos opositores aos meus que não fazem sentido, são opiniões e a gente cresce tentando aprender como debater ideias.

Só que assim, tem um limite.

Quando você acha que tem que privatizar a porra toda é uma opinião, mas achar que assistência aos mais necessitados é “compra de votos” e que gays, negros e mulheres vivem de coitadismo é flertar com a falta de caráter. Quando você diz que a relação público-privada está corrupta e que esse mal precisa ser expurgado é uma opinião, mas não abrir mão de dar um jeito de pagar pra tirar a CNH ou comprar aquele recibo do seu médico favorito pra pagar menos IR é ser corrupto. Quando você acha que 12 anos de um mesmo governo é projeto de poder, mas 30 de outro é competência, é ser, no mínimo, desonesto. Quando você diz que “todo mundo rouba mas o último governo aperfeiçoou isso” é ser caolho. Quando você diz que todos devem ser investigados e punidos nos rigores da lei, mas curiosamente decidiu pensar isso só depois de um espectro político que nunca representou (ou não representa mais), suas visões, você habita a linha tênue que tento expandir abaixo.

Nós (todos nós, enfatizo) não somos reis da coerência, eu sei. É bastante foda, mas mesmo com esses exemplos aí em cima, ainda existe uma brecha (com um pouco de boa vontade, vai) pra conversar, dialogar e até em “concordar em discordar”, mesmo tendo que lidar com a flagrante falta de vontade de buscar contrapontos. Afinal, se você perceber que está falando algo que não é bem a verdade fica ruim, então, melhor não investigar e se amarrar na âncora do seu argumento raso. Agora, usar esses argumentos só como pano de fundo pra esconder que a gente gosta mesmo é de repreensão, unicidade de pensamento, silêncio, cangalha e obediência é de foder e, basicamente, errado.

Você pode ser anti o que você quiser nessa vida, meu amigo, mas não seja imbecil o suficiente pra ser anti você mesmo. Quando você abre mão da sua mínima coerência e bondade como ser humano, deixa de querer que as pessoas tenham um mínimo de dignidade, acha que a solução é emudecer quem pensa diferente e começa a ter que operar contorcionismos lógicos pra convencer a você mesmo de que está certo, de que “vale tudo, desde que não sejam esses caras no poder”, você dá um tiro na própria cabeça, mas culpa a sensibilidade do gatilho.

Existem muitas, mas muitas coisas que ainda precisam melhorar, serem esclarecidas, revistas e mudadas – isso é a vida. Mas se existe um fato concreto é que o caminho é diametralmente oposto ao que se desenha. E não me venha com o papinho de que não havia opções: você nunca teve só duas opções, meu caro, você teve quase 10. Essa é só mais uma máscara pra esconder que, no fundo, você gosta mesmo é de não ter que conviver com quem pensa diferente de você e questiona suas decisões, escondendo isso sob a égide da “canseira da velha política”.

É muito, mas muito assustador ver pessoas que acreditaram que tudo foi um plano e que estávamos a caminho dos anos 50 americanos e que agora acreditam que corremos novamente risco de nos tornarmos tudo foice e martelo. Se você, que se pinta como um cara informado, do bem e adora desfilar sua lógica entre copos de cerveja tivesse afim MESMO de entender o mundo, essa é a primeira coisa que você pararia de repetir que nem um papagaio treinado por um louco. Mas isso é outra discussão.

A realidade é que amanhã todos vamos, livremente, apertar botões pra decidir qual é a sociedade que a gente quer, com direito de votar em A ou B, como fazemos há míseros 30 anos.

Só quero terminar te pedindo pra refletir que em nenhuma das últimas 7 ou 8 vezes você foi votar com a pulga atrás da orelha por não saber se pode ser a última vez que você vai fazer isso, mesmo durante o tal governo comunista que o pessoal conta pra gente. Você também não tinha dúvidas se durante os próximos anos vai poder criticar o governo que você escolher livremente, caso ele te decepcione, se você vai poder questionar porque seu salário não aumenta mas seu chefe continua trocando de carro anualmente ou se você vai poder se expressar livremente sem correr o risco de apanhar.

Mesmo que sua escolha seja em defesa de um bem maior e contra tudo isso que está aí, seja honesto com você mesmo e reflita sobre qual bem maior você tem além da sua própria humanidade.

Eu sempre vou preferir a liberdade pra discordar do que a obrigação de concordar.

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De volta pro meu aconchego (?)

Estou, oficialmente, forçando-me a escrever de novo e mais.

Não sei sobre o que. Não sei a periodicidade. Não sei por quanto tempo.

Mas preciso escrever pra viver melhor. A cabeça não dá mais conta de guardar toda a informação gerada diariamente nesse mundo cada vez mais retardado.

E eu não tenho mais condições de não dizer algumas coisas que eu ando pensando sobre as dores, alegrias e loucuras de (e do) ser humano.

E lá vamos nós, novamente. Espero que não seja promessa vazia em tempos de eleições obscuras.

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O cansaço tingido de espanto

Já perdi a conta de quantas vezes postei esse trecho do Camus em todas as versões de blog que eu tive, mas ele nunca deixa de ser relevante ou atual.

Aos poucos vamos deixando de viver para sobreviver; sobreviver num caos diário buscando sentido para as mecanidades da vida e aliviar a fadiga mental que cresce.

E não cabe a ninguém mais, além de nós mesmos, escalar pra fora desse caos.


Ocorre que os cenários se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o “porquê” desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. “Começa”, isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a consequência: suicídio ou restabelecimento. Em si, o cansaço tem alguma coisa de desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. Essas observações não têm nada de original. Mas são evidentes: por ora isso é suficiente para a oportunidade de um reconhecimento sumário das origens do absurdo. A simples “preocupação” está na origem de tudo.

“O mito de Sísifo”, Albert Camus

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