Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Deus fez o Rock and Roll… e o Samba, o Choro, o Funk

Eu sou rockista de origem. Cresci ouvindo rock progressivo por parte de pai e, até hoje, talvez seja meu estilo de música preferido, junto ao blues. Até por conta disso eu me interessei por instrumentos musicais e comecei a tocar violão e, posteriormente, guitarra.

E não faz muito tempo eu fazia parte do seleto grupo (ironia inclusa) de músicos roqueiros adoradores do diabo que fazia pouco caso de outros estilos musicais, sobretudo os mais populares, por motivos de imbecilidade mesmo. Muito bem.

Outro dia tava ouvindo um som da Ludmila que tava tocando numa rádio e me peguei pensando justamente nisso: como o preconceito musical é uma construção que não vem, essencialmente, de lugar nenhum que faz sentido. Digo, é claro que uma pessoa sempre vai gostar mais de uma coisa e menos de outra, mas a correlação quase inata que a gente faz na cabeça é “se eu gosto é bom, se eu não gosto é ruim”.

E é justamente por isso que eu mencionei o lance de ser roqueiro no começo. O rock é conhecido pela paixão e devoção que seus apreciadores têm com o estilo, suas bandas; é um estilo de vida e, geralmente, termos como “irmandade” e “família” são utilizados pra se referir a este grupo – e eu acho isso foda. Mas, infelizmente, ficando mais velho, amadurecendo e prestando mais atenção em algumas coisas, comecei a notar em como há um componente que aproxima o rock de uma seita. Explico.

Já perceberam que apreciadores de rock (de qualquer vertente) costumam trabalhar naquele conceito da qualidade? “Tal música não tem harmonia”, “Tal coisa não é música, é barulho”, “Tal banda é simples demais” etc. É como se o rock fosse um gênero superior e outros fossem meras tentativas fazer barulho.

E isso é foda porque, com o tempo, começa a esvaziar a importância que o gênero sempre teve pra música, seja como protesto, seja como expressão artística, além de gerar bode sobre quem ouve esse tipo de som. Não é incomum associar músicos de rock a setores mais conservadores, reacionários e retrógrados da sociedade (até porque, em geral, é isso que é mesmo).

Na minha modestíssima opinião, o rock tem papel fundamental na demonização de gêneros tipo funk (aliás, adoro o famoso “mas isso que tem aqui nem é funk original, o funk mesmo é…“), pagode, samba, sertanejo entre outros (independentemente de gosto – não é o ponto aqui). Tal como o doisladismo político, parte integrante do jornalismo medíocre contemporâneo, o rock sempre foi posto como “a antítese de algo tido como de baixa qualidade intelectual e técnica” – e a gente, sem nem perceber, engole.

Mais do que frequentemente, o primeiro ponto de crítica ao funk é em relação às letras pornográficas e, em geral, preconceituosas e machistas. Mas nunca ouvi ninguém revoltado com, por exemplo, Mötley Crue:

Eu sou um bom, bom garoto
Eu só preciso de um brinquedo novo
Eu vou te dizer, garota
Dance pra mim, eu manterei você super ocupada
Apenas me conte uma história
Você sabe de qual eu estou falando

Mötley crue – girls, girls, girls

Por que? Porque não é óbvio, tipo “senta, senta, senta”? Por que é em outro idioma? Porque, se for por isso, eu posso dar um exemplo mais próximo ainda:

“As mulheres e as galinhas
São dois bichos interesseiros
A galinha pelo milho
E a mulher pelo dinheiro”

Abre essas pernas pra mim baby
Tô cansado de esperar
Você dá pra todo mundo
Só pra mim que você não qué dá

Velhas virgens – abre essas pernas

E aí? E tem mais… Raimundos, Camisa de Vênus, Ultraje..

O que eu quero dizer com esse texto que parece não ter pé nem cabeça é que, infelizmente, o rock que eu tanto amo até hoje, como todo e qualquer gênero musical, tem coisas ruins e boas, porém, parece-me que o rock sempre esteve meio que liberado pra ser machista, escroto, reacionário e politicamente incorreto. E eu não sei se a gente fala tanto disso quanto poderia/deveria.

Hoje, depois de muito tempo, ouço essencialmente qualquer coisa e ainda há coisas que acho ruins, toscas e pras quais sempre solto o meu jargão “isso é uma grande bosta”. Porém, passei a não mais olhar pro rock, metal e zas como uma espécie de oásis de qualidade e elevação espiritual em meio aos outros sons.

A música cumpre diversos papéis na sociedade e é, sobretudo, expressão cultural de comunidades, regiões, povos – não tem a menor condição de ficarmos eternamente criando pedestais qualitativos por aí.

Referência do título deste post aqui.

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O precipício da ignorância

Dando uma vasculhada aqui no WordPress, achei um monte de texto começado (eu não sempre falo que nunca termino as coisas?) e, incrivelmente, esse aqui que tava prontinho e nunca foi postado.

O texto foi escrito, segundo o rascunho aqui, em Dezembro de 2017 e, infelizmente, segue atual. A gente não consegue melhorar e mal sabia eu que a gente ainda ia piorar.

Outro dia, voltando do almoço, ouvi uma senhora berrando no telefone com um atendente (pelos berros, da Vivo). E pra vocês terem uma noção do que quero dizer com “berrando”, eu estava no cruzamento da JK com a Faria Lima, um dos lugares mais barulhentos de São Paulo, e podia ouvir a mulher claramente – e ela nem estava tão perto de mim assim. Eu comecei a prestar atenção de fato quando a moça, que não tinha mais do que 50 anos, berrou: “Quem é o imbecil que está falando agora? Que merda você vai me propor agora?”.

Yomotsu Hirasaka, a entrada pro mundo dos mortos. Sim, eu sou nerd. Fonte e imagem: http://pt-br.saintseiya.wikia.com/wiki/Yomotsu_Hirasaka
Yomotsu Hirasaka, a entrada pro mundo dos mortos. Sim, eu sou nerd. Fonte e imagem: http://pt-br.saintseiya.wikia.com/wiki/Yomotsu_Hirasaka

Pesado, né? Digo, quem nunca passou raiva tentando resolver um problema no telemarketing? É normal. Sempre que a gente liga pra uma dessas centrais de atendimento é porque temos um problema pra resolver e, via de regra, ninguém gosta de resolver problema. Além disso, quando a gente tá irritado a gente sempre procura alguém pra botar a culpa – e nesse caso é sempre do atendente. Mas o que me fez escrever esse texto não foi necessariamente discutir quem está certo ou errado numa dessas situações, mas sim, o que está acontecendo com a nossa empatia, com as relações que deveríamos estar construindo?

O que, de fato, leva alguém ficar tão ensandecido a ponto de berrar para uma pessoa desconhecida que ela é imbecil, incompetente ou afins embora, mal ou bem, esteja ali pra tentar nos ajudar a resolver algo? Quando foi que paramos de nos colocar no lugar do outro? É claro que em todos os ramos existem pessoas ruins em seus trabalhos, mas isso ainda não nos dá o menor direito de tratá-las como um serviçal que só está ali pra cumprir nossos desejos. Estamos caminhando, moribundos, ao precipício da ignorância e pequenez. Só olhamos pras nossas pequenas telas e nossos enormes egos; o outro é o outro e que se foda. Se eu tenho um problema alguém tem que resolver – meu dever é esperar a solução.

Cena de “Invasão Zumbi”, filme sul-coreano de 2016. Veja esse filme (tem no Netflix). Sério.

E o pior é que isso vem se espalhando que nem um vírus. Principalmente aqui em São Paulo, essa cidade doente, o pavio das pessoas está cada vez menor, no trabalho, na rua, nas lojas, em todo lugar; estamos vivendo em uma época em que, às vezes, estamos andando calmamente por uma calçada, quase somos atropelados por um carro saindo acelerado de uma garagem (porque, além de tudo, todo mundo tem pressa, não se sabe porquê, mas tem) e ainda somos xingados como se estivéssemos errados.

A gente passa raiva sim (eu passo raiva pra caralho), mas, a partir do momento em que começo a derramar essa baba de ódio sobre os outros, o problema vira uma epidemia¹. Essa falta de empatia é como uma doença não tratada: se você ignora o diagnóstico e não aplica o tratamento, ela cresce e toma conta de você; quando você se dá conta, já se perdeu em meio à escuridão.

Pratique a gentileza. Ajude a sociedade se curar.

É melhor pra você, pra mim e pra todos.

1 Olha eu sendo profético…

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Três décadas e meia depois

27 de Junho de 2020, dia do Apocalipse véspera do meu aniversário (e quando comecei esse texto, isso é, semana passada após uma maratona da última temporada de Dark que possivelmente será a tônica neste texto).

No último dia 28 completei 35 anos de idade e nem nos meus sonhos mais malucos eu imaginava isso acontecendo em meio a coisas tão diametralmente opostas quanto uma pandemia e com a minha esposa grávida da nossa primeira filha.

Pra falar a verdade, eu nunca fui de pensar muito em aniversários. Quem me conhece sabe que todo ano, quando vai chegando perto e me perguntam o famoso “e aí, vai fazer o que no seu aniversário?” eu nunca tenho nada em mente e acabo decidindo tudo de última hora. E nem é porque eu não gosto nem nada, eu só não penso muito sobre.

Mas nesse eterno ano de 2020 não tem como. Só que quando começamos a refletir sobre fazer aniversário invariavelmente refletimos sobre toda nossa vida até então, nossos passos, escolhas, pessoas que conhecemos e tal, não só sobre, sei lá, o último ano. É assim que a mente funciona.

Completo três décadas e meia no que eu tranquilamente posso chamar de melhor momento da minha vida adulta. Sou apaixonado e casado com a mulher da minha vida, vou ser pai de uma menina daqui pouco mais de 2 meses, tenho um trabalho que nos proporciona uma vida mais do que confortável (o que é um oásis nesse mundo doente de hoje) e, sinceramente, não tenho nada do que reclamar.

E o caminho até aqui foi, no mínimo, interessante. Envelhecer é um processo que possui uma das coisas que eu mais abomino na vida que é a total falta de controle sobre o que pode ou não acontecer (tipo como um… Apocalipse). Só que, ironicamente, é provavelmente por conta dessa falta de controle que eu estou aqui do jeito que estou aqui.

Foi justamente por ter feito escolhas erradas que, hoje, talvez o meu julgamento sobre o que é certo ou errado é um pouquinho melhor; foi justamente por ter sido uma pessoa não muito boa algumas vezes que hoje eu tento ser a melhor pessoa possível que cada situação pede; foi justamente por ter me silenciado diante de injustiças e absurdos que hoje eu busco me posicionar sempre que possível. Enfim, foi por ter achado que o mundo girava em torno do meu umbigo, das minhas dores e angústias que hoje – embora ainda esteja longe de ter eliminado esse comportamento – sei que eu importo tanto quanto qualquer outra pessoa nesse planeta.

Estamos vivendo a era da lacração e desconstrução, onde todo mundo tem uma opinião sobre tudo e todos o tempo inteiro e estamos sempre com dedos a postos pra botar na nossa cara com um sonoro “eu avisei” (eu incluso). Mas desconstruir-se é um processo que leva mais tempo que um vídeo o YouTube e exige mais estudo do que 280 caracteres no Twitter, além de prescindir da sua mente disposta a ser corrigida. Por fim, sejamos honestos: o processo de desconstrução nessa nossa sociedade desigual, viciada e esgotada não termina. Nunca estaremos livres de todos os nossos preconceitos e arrogâncias.

E assim chego aos 35 anos de idade, muito melhor do que eu já fui, mas ainda longe de ser a pessoa que eu posso e quero ser.

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Quando 1 mais 1 é igual a 3

Meu vô, ironicamente, faleceu no último dia 24/03 aos 89 anos. Ironicamente porque esse texto, essencialmente, fala de renovações, novas vidas, novos inícios – mas eu não queria publicá-lo sem uma pequena menção ao meu vô.

Que o Seu Tonico descanse em paz e, lá do cantinho no Céu em que ele está agora (definitivamente ouvindo o Tonico e Tinoco ao vivo) ele sempre abençoe e olhe pela pequena Babi que vem por aí.


No fim do ano passado, mais precisamente em 23/11, eu e a minha excelentíssima agora esposa Bru nos casamos. Aquela coisa de estar tão louco um pelo outro que a gente resolveu até por o Estado no meio do relacionamento.

A gente já morava junto há um bom tempo e, pra todos os efeitos, éramos namoridos. Então, teoricamente, nada muda né? É só uma festa com os amigos e família pra celebrar e tal: churrasco, cerveja, pulos na piscina.

Foto: Janaína Carvalho (janainacarvalho.com.br)

Não sabíamos de nada.

Primeiro que muda sim e é um troço doido. Dentro da sua cabeça um interruptor liga e a relação fica mais íntima, verdadeira e foda; é sério – você passa a olhar pra relação com outros olhos e outras expectativas e, pelo menos no nosso caso, uma sensação de estar no melhor momento do nosso relacionamento, da nossa vida.

Sabíamos menos ainda.

Lua de mel em Salvador (aquele lugar incrível que puta que pariu depois que você ler esse texto vai comprar uma passagem e conhecer). Dias maravilhosos. O Farol da Barra, literalmente uma Tarde em Itapoã, Caruru escorrendo do prato e a água escorrendo da garrafa de cerveja geladíssima. Um calor saariano, mas que não fazia diferença, já que a energia indescritível dos Orixás, as cores do Pelourinho e os cheiros apimentados dos Vatapás, os atabaques dos Terreiros, faziam com que a gente se sentisse (talvez pela primeira vez?) no Brasil real. Uma semana que dificilmente seria superada tão cedo.

Atingimos o topo de nossa ignorância.

Bru em Salvador

Alguns dias depois, de volta à velha rotina em São Paulo, alguma coisa não estava exatamente igual, dizia a Bru; desde de Salvador tinha algo acontecendo com ela, com o corpo, com a essência. Óbvio né, afinal, uma descarga de energia daquele tamanho (é sério, leitor, SALVADOR É FODA) muda as pessoas – mas não era exatamente isso. A Bruna, pra quem não conhece, é absurdamente sensível – ela sente cheiros, ouve sons, vê e sente coisas quando ninguém mais vê ou sente; ela tá sempre um passo à frente e, se ela diz que tem alguma coisa diferente, tem alguma coisa diferente.

E foi sob esse véu de inquietude e desconfiança que tudo mudou. Dia 23/12/2019, dois dias antes do Natal, a ignorância se transformou em sabedoria, que nos contava: vocês serão pais.

Sim, eu vou ser pai. Pai… meu Pai, e agora? Em alguns meses (depende da conta que você faz e sim contar em semana faz mais sentido – minha primeira lição na paternidade) vêm a esse mundo maluco um ser puro, ingênuo, pedindo para ser cuidado e moldado e que dependerá de mim pra sempre, de maneiras diferentes. Justo eu, que não consigo nem cuidar de mim direito… mas desse eu vou cuidar. Ah vou.

Ali atrás, sóbrio, é o Gonzo.

Eu farei de tudo pra que essa criança sorria sempre que tiver que sorrir e que chore litros, quando for hora. Pra que grite quando estiver insatisfeita, mas que entenda que tem vezes que a gente engole seco a insatisfação e tá tudo bem. Pra que saiba o tempo todo que eu e a Bruna estaremos sempre com ela, ainda que não fisicamente, por vezes. Pra que saiba que o mundo às vezes é uma bosta, mas na maioria das vezes é colorido e alegre como um bloco de carnaval.

É claro que eu ainda não entendi nem metade do que tá acontecendo, eu meio que só tou fingindo. Esse texto, por exemplo, está parado há semanas, porque nada do que eu escrever vai 1) conseguir expressar absolutamente o que se passa aqui dentro e 2) capturar o tamanho e a importância desse momento que estamos vivendo. A ficha vem caindo devagar, bem aos pouquinhos, quase parando e eu sei que, quando ouvir aquele primeiro chorinho de desespero de ter uma coisa estranha entrando em seus pulmões, eu vou entender totalmente que tudo mudou.

Eu não vejo a hora de escutar esse choro.

Te amo, Bruna.

Te amo, pequena Babi.

Oi, eu sou a Babi. =)
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Não tem nada glamuroso em viajar a trabalho

Eu cumpri a minha promessa do Twitter, mas não publiquei esse texto 1 semana atrás quando terminei ele. Esse é um dos meus grandes problemas quando penso sobre escrever: eu fico revisando, revisando, revisando e sempre adio a postagem. É a constante busca pela perfeição que não existe. É como nessa cena do De Volta Pro Futuro (possivelmente meu filme favorito de todos os tempos) na qual o pai do Marty diz “Ah, não não não, eu nunca deixo ninguém ler minhas histórias. E se eles não gostarem? E se eles disserem que não sou bom?

Mas tá aqui. Divirtam-se! Obrigado pela paciência e contem pros seus amigos, parentes, colegas de trabalho…

Se alguém dissesse pra mim que um dia eu estaria num avião indo a trabalho pros Estados Unidos eu teria uma crise de riso daquelas que a gente perde o ar. Mas cá estou eu: 15 anos depois começo esse texto em um avião a caminho de Dallas e termino sentado num quarto de hotel em San Jose.

E não tô escrevendo isso pra me gabar ou só como um pretexto pra dizer olha como eu sou viajandão, mas é que me peguei pensando em toda a mitologia que existe em torno dessa coisa da viagem a trabalho e resolvi escrever sobre (e porque o @crisdias compartilhou pensamentos super parecidos com os meus numa das últimas newsletters do Boa Noite Internet e isso também me deu uma inspirada).

Eu achava chique demais pessoas que viajavam a trabalho e tal. Mais do que ir pra outra cidade pra fazer uma reunião, ou tocar um projeto ou o que seja, todo o glamour e purpurina de sentar num aeroporto, pegar um café de R$40, abrir o note e zás era incrível na minha cabeça.

Quando eu fui efetivado no meu primeiro grande emprego, depois de um tempo, eu passei a ser essa pessoa e ia direto pro Rio de Janeiro. No começo era um negócio maluco, porque pensa: eu vim de uma família que ninguém nunca tinha andado de avião e o primeiro a fazer isso sou eu, um moleque de uns 20 e poucos anos indo a trabalho pro Rio. Porra, foda! E mais: depois começo a trabalhar em empresas multinacionais e passo a viajar internacionalmente! Rapaz, estourei! Venci na vida!

Nas primeiras vezes era animal, eu realmente me sentia muito importante (antes das minhas definições de importância serem atualizadas), mas depois de um tempo começou a ficar maçante e cansativo. Aí você fala isso pras pessoas e parece que você é um arrogante de merda, mas é a realidade, que é bem diferente do mito que essencialmente é glamour, curtição e visitar lugares topzera o tempo todo. Veja, algumas dessas coisas podem acontecer, mas uma viagem a trabalho pressupõe, bem, trabalho. Além de todo o estresse que é o processo de viajar você não tem exatamente passe livre pra fazer qualquer coisa a hora que bem entender, afinal, a empresa tá te “dando” esse presente porque ela espera algo em troca, certo?

É CLARO que é um baita privilégio e uma oportunidade ímpar de se conhecer lugares, culturas e afins teoricamente de graça (e dá pra fazê-lo) mas o que eu estou tentando dizer é que não existe glamour – é estressante e solitário na maioria das vezes. Infelizmente não é possível ficar fazendo rolês pelas cidades e pelas lojas porque o que te sobra é o “pós horário comercial”, que no meu caso ou eu quero comer ou ficar brisando no quarto do hotel (sobretudo quando o fuso tá arrebentando minha cabeça) e, às vezes, um dia do final de semana, que eu sempre quero aproveitar do jeito que eu bem entender.

Eu me sinto muito culpado quando alguém me sugere um passeio e eu não consigo fazer, ou pede alguma coisa e eu não compro ou ainda quando eu não consigo espremer um tempo pra comprar lembranças pras pessoas que eu gosto, mesmo sabendo que não vão me cobrar ou odiar por isso. Em um certo nível, isso é minha maneira de 1) mostrar que eu gosto e me importo com a pessoa 2) que de alguma maneira quero dividir um pouco dessa experiência com os outros que não podem estar aqui, e quando não dá certo lá venho eu me martirizando.

Não me leve a mal: eu agradeço demais por trabalhar em lugares que me proporcionam esse tipo de experiência, mas de uns tempos pra cá passei a ser menos romântico sobre viajar a trabalho. Talvez eu esteja ficando (mais) ranzinza. Talvez não, provavelmente.

De qualquer maneira, se você conhecer alguém que viaje sempre assim, não seja muito duro com essa pessoa quando ela der aquela reclamada sobre “ter que viajar de novo”, quando ela não seguir suas dicas ou ainda se não conseguir trazer alguma coisa que você pediu. 🙂

Abraços!

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Não posso querer ser nada

Antes do texto, primeiramente obrigado a todos que sugeriram temas para este humilde espaço de descarga mental. Eu sei que isso faz tipo 15 dias já, mas eu realmente estou comprometido a soltar um texto por semana (Deus ajuda eu) sobre coisas. Por favor, leiam, comentem, contem pros seus amiguinhos e zas. E, de novo, obrigado!

Agora, vamos à brisa do dia!


Como já comentei em alguns outros textos por aqui faço terapia há quase 5 anos já. Muitas pessoas me perguntam “se isso não é muito tempo e se já não passou da hora de me dar alta”. Sempre falo que não e que terapia, ao menos pra mim, é ainda algo de longo prazo; que mesmo há 5 anos lá, existem muitas coisas que eu ainda preciso levar pra discussão e tal.

E há algumas semanas eu tive mais uma prova (e uma senhora prova) disso.

Na sessão, como sempre, lá estava eu discutindo a minha eterna síndrome do impostor, como eu sempre vivo num constante estado de devedor, de eterno perdido em meio aos desafios do dia-a-dia. Começamos a entrar nesse buraco negro até que, de repente, eu parei de falar; olhando pro teto, comecei a brisar profundamente e me dei conta de uma coisa bizarra: ao contrário de muitas pessoas, eu nunca, quando criança ou adolescente, tive aquela famosa conversa sobre “o que eu queria ser quando crescer”. Eu juro que não tenho memória de conversar com ninguém sobre coisas que eu me via fazendo como adulto, do ponto de vista profissional.

E eu nem acho que é culpa de ninguém, mas eu realmente, àquela época, não olhava pra pessoas e pensava “porra, quero ser que nem ele(a) quando for mais velho”; eu tinha minhas paixões momentâneas, do tipo “quero ser jogador profissional de vôlei“, quando eu treinava 3x por semana, ou ainda “quero ser músico“, quando comecei a tocar violão ou, ainda, “quero mexer com informática“, quando conheci um computador, mas nada despertava aquele tesão a longo prazo de ser algo.

Eu só queria ter “meu dinheiro”, porque em determinado momento da vida a situação lá em casa era complicada e o que entrava no meu cérebro era muito o “preciso estudar, ser foda pra caralho – não importa no quê – e ganhar uma grana porque viver é aparentemente bem difícil”. Era uma coisa meio “eu não posso me dar o luxo de querer ser nada, eu só preciso ser algo que me sustente e devolva pra minha família tudo o que eles sempre depositaram em mim. E essa epifania foi um baita chacoalho porque a relação que eu passei a fazer foi a seguinte: “ora, se eu nunca pensei em ser especificamente nada nessa vida, como é que eu posso querer saber se eu cheguei lá” Lá onde, caceta?

Doido, né?

Eu até imagino que muitas outras pessoas no mundo nunca tiveram esse tipo de discussão durante suas formações como pessoas e tal, não quero dizer que eu sou diferentão, mas hoje é claro pra mim que, embora eu tenha indicadores externos de que conquistei coisas na vida, tanto no pessoal quanto no profissional bicho, internamente a sensação continua sendo “tô perdido, ainda falta. Vai, Alê, segue“.

Isso foi foda. Mostrou pra mim o quanto eu ainda sou uma criança na terapia que tem muito o que elaborar e como eu sou muito foda em criar problema onde não tem só pra alimentar a minha ansiedade e minha auto-inveja, ou auto-sabotagem. Com essa descoberta, por exemplo, eu posso começar a trabalhar minha mente a ser menos destrutiva e exigente no que diz respeito a mim mesmo. Óbvio que é foda e dá trabalho, mas ao menos eu tenho um ponto de partida, não estou mais no escuro.

E você, já se deu conta de algum mecanismo bizarro que você inconscientemente usa pra te sabotar?

Abs!

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O equilíbrio é uma ilusão

Semana passada, eu e a Bru estávamos brisando em um de nossos papos pós-trampo no quintal de casa sobre terapia e o dia-a-dia tentando ser pessoas mais equilibradas nesse mundo maluco que a gente vive. E eu meio que tive uma epifania.

Capa do disco "A Dramatic Turn of Events", Dream Theater

Um dos pontos centrais da minha (e, de verdade, de qualquer uma acho eu) é a busca pelo equilíbrio. Se você faz ou fez terapia eu aposto que, em algum momento, seu terapeuta te disse que “é necessário encontrar o equilíbrio para…” [complete mentalmente com seu caso específico].

Pois bem. Faz sentido e tal mas eu acho que cheguei à conclusão de que isso não existe; que o equilíbrio, da maneira que em geral temos em mente, é meio que uma ilusão.

Explico.

De acordo com o que nos é proposto, ser uma pessoa equilibrada é, basicamente, equilibrar suas ações e sensações; é viver menos nos extremos mentais da explosão e da languidez, ou seja, viver numa mediana de certa forma insossa e inofensiva, correto? E é aqui que entra minha epifania e incômodo com essa definição.

Image result for about to blowEu sou alguém que tenho como um dos principais pontos de atenção e melhora o tal do equilíbrio; tou sempre trabalhando no 8 ou no 80 da vida o que não é lá muito saudável. Desde que, portanto, comecei a entender que para ser uma pessoa melhor e mais em paz era esse proposto balanço, comecei minha cruzada em busca dele.

O problema é que eu (e talvez qualquer ser-humano vivo) somos seres que por definição não fomos criados para vivermos numa meiuca de sensações; nossa existência e nossos desejos habitam mais proximamente dos “extremos emocionais”. Não é quando estamos em êxtase, ou com muito medo, ou muito inquietos etc que normalmente nos propormos a fazer algo? E, basicamente por essa razão, passei a sofrer até um pouco mais justamente por não conseguir achar este maldito equilíbrio.

Tendo dito isso, a minha epifania besta foi a de que na real o que a gente precisa aprender é o oposto: reconhecer nossas oscilações. Uma metáfora que me ocorreu é a da escotilha de Lost (se você não assistiu o seriado, embora seja um absurdo, não se preocupe que eu explico; você também pode ver esse vídeo aqui pra ter um contexto geral ou ler este artigo com uma explicação mais detalhada).

Uma das propriedades encontradas na ilha de Lost era um bolsão de energia eletromagnética… tipo, muita energia. Os cientistas achavam que, se soubessem controlar e manipular essa parada junto com a matéria exótica que também tinha na ilha eles poderiam fazer coisas doidas com o tempo.

Obviamente tudo deu errado. Rolou um acidente e essa energia passou a precisar ser monitorada e controlada para que, essencialmente, não explodisse a parada toda. De 108 em 108 minutos, um código precisava ser digitado pra que a energia acumulada fosse liberada e tudo continuar bem no planeta (sim, no planeta).

Computador da escotilha Cisne, LOST

Finalmente, pra mim, é mais ou menos assim que eu entendo que deva (ou possa) ser nossa relação com as emoções. Basicamente precisamos ser vigilantes o tempo todo para que ela nem exploda nem se anule e pra que, quando sentirmos que estamos num nível perigoso, que possamos digitar uns códigos na nossa cabecinha e voltar a oscilar próximos à meiuca, mas nunca vivendo de maneira linear sobre ela.

E aí, faz sentido pra você?

Abraços!

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No fim da semana, um recado pra próxima

Deixo esta semana que se encerra com um objetivo pras próximas que virão. É bem verdade que já fiz essa promessa antes, mas, quem nunca teve que prometer a mesma coisas várias vezes antes de efetivamente cumprir que publique o primeiro tweet.

De qualquer maneira, anuncio:

Volto a escrever neste espaço aqui.

Alê Flávio, o fazedor de promessas

A semaninha que tirei de férias do trabalho e que pude botar, por exemplo, minha leitura em dia reforçou o quanto minha sanidade depende das letras que eu ponho na cabeça e no papel (neste caso, na tela).

Espero que vocês tenham saco de vir nessa jornada comigo, senão, afinal, pra que a fadiga?

Até lá!

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O Nada como necessidade

Hoje acordei contemplando o nada. Sentado ali, no limbo de sentimentos, tentava entender que tipo de reação é possível no vazio.

Não estou triste nem alegre, apenas não estou. É como se minha mente tivesse atingido o máximo e tenha escolhido hoje como um dia para descompressão, como os computadores que travam no meio do expediente.

Na terapia foram 50 minutos admitindo que talvez eu não tivesse nada pra dizer, ou pensar, ou elaborar. Foram voltas e voltas atrás do rabo, tentando achar a raiz de algo que é, essencialmente, ausência. Nem o 1984, que sempre chama minha atenção por ser o único romance entre dezenas de livros teóricos de psicologia me intrigou hoje.

Olhar pro nada, de maneira catatônica, parece ser a única alternativa quando sentimos essa fadiga mental. Diariamente, absorvemos mais do que queremos (e percebemos) e não processamos nem 1% disso adequadamente; em determinado momento a mente quer apenas espaço, ócio, nada.

Um brinde ao deserto existencial!

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Ideias, moléculas e água fervente

Minha cabeça é uma coleção de ideias e ideais desorganizados, caóticos como moléculas de uma chaleira d’água em fervura.

Sempre esperei a água esfriar, mas começo a achar melhor usar a água pra passar um café enquanto compartilho meus desassossegos.

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