Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Categoria: Reflexões (page 1 of 2)

Nossa própria distopia

Sentei pra escrever um texto e vi meu último, que foi mais um apelo desesperado do que um artigo. De qualquer maneira, não deu e vivemos numa distopia digna de um filme do Aronofsky. Mas isso é tópico pra outro momento.

O que eu quero falar é sobre a nossa própria distopia; aquela que a gente cria pra gente mesmo diariamente e nem se dá conta.

Eu faço terapia há algum tempo já e uma das minhas queixas recorrentes é sobre minha dificuldade de me engajar em coisas além do meu trabalho normal diário; coisas que sempre me alimentaram mental e espiritualmente e me ajudaram a diminuir um pouco a pressão do dia-a-dia.

E a nossa muleta preferida é o tempo. “Não tenho tempo”, “não tive tempo”, “quando vou ter tempo pra isso”, tempo, tempo, tempo… E é justificável, vai. Vivemos em uma era em que somos sufocados diariamente por um excesso de informação e obrigações as quais achamos que devemos absorver e fazer algo com tudo. Só que, pra mim, esse é só um ponto (e não tão justificável).

Na minha opinião, o pior que criamos é a tal da distopia que comentei um pouco acima. Voltando ao meu exemplo pessoal: eu sempre escrevi razoavelmente bastante e, de uns tempos pra cá, praticamente parei. E por que parei? Bem, tempo pode ser um motivos, mas, a definição de expectativas num nível absurdamente alto e, em certa medida, inalcançável é o pior. Essa é a distopia, um mundo futuro criado à partir de um medo irracional de falhar.

Antes mesmo de nos propormos a fazer qualquer coisa, começamos a nos questionar se somos capazes, se temos o que é necessário, se vamos conseguir, se é relevante, se os outros vão gostar etc. Mais do que isso: é já ter definido na sua cabeça que não tem a menor condição (e razão) de fazer o que você quer e, então, pra que se dar ao trabalho de começar. Estamos sempre esperando demais de nós mesmos.

Por isso que expressões como “se você quer fazer algo é só começar” têm sua validade, mas não cobrem o cenário macro. Não é só preguiça. Não é só procrastinação. É auto-inveja, auto-estima baixa, medo puro, traumas, enfim, um conjunto de fatores que se nós mesmos não conseguirmos elencar e ter ciência deles, não sairemos nunca do lugar.

Eu ainda não achei uma solução pra mim em quase 5 anos de terapia e uns 2 de consciência desses movimentos. Eu tenho dificuldade de voltar a escrever frequentemente (notem o tempo entre um texto e outro), estou sempre pronto a providenciar desculpas pra não ler meus livros e tenho frases prontas pra não sentar e passar horas tocando guitarra

Esse texto é mais uma tentativa de desmontar a distopia por dentro, uma tentativa de contar pra outros que isso tudo existe e que é preciso admitir pra seguir.

Compartilhe:

O cansaço tingido de espanto

Já perdi a conta de quantas vezes postei esse trecho do Camus em todas as versões de blog que eu tive, mas ele nunca deixa de ser relevante ou atual.

Aos poucos vamos deixando de viver para sobreviver; sobreviver num caos diário buscando sentido para as mecanidades da vida e aliviar a fadiga mental que cresce.

E não cabe a ninguém mais, além de nós mesmos, escalar pra fora desse caos.


Ocorre que os cenários se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o “porquê” desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. “Começa”, isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a consequência: suicídio ou restabelecimento. Em si, o cansaço tem alguma coisa de desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. Essas observações não têm nada de original. Mas são evidentes: por ora isso é suficiente para a oportunidade de um reconhecimento sumário das origens do absurdo. A simples “preocupação” está na origem de tudo.

“O mito de Sísifo”, Albert Camus

Compartilhe:

Força, Chape. Muita força.

imageEu não sei muito bem o que escrever – mas não consigo ficar sem fazê-lo.

Estou acompanhando tudo o que posso desde hoje cedo, quando soube da terrível tragédia com o avião que transportava a Chapecoense.

É dolorido.

O impacto do ocorrido é tamanho que, confesso, sinto como se tivesse perdido alguém extremamente próximo a mim; aquele nó na garganta que cresce a cada linha de notícia lida, a cada manifestação solidária dos mais diversos lados – uma avalanche de consternação e incompreensão.

Destino? Tragédia? Azar? Sei lá. Mas também não importa muito.

Aconteceu, infelizmente, aconteceu.

A maneira como se deu a classificação contra o San Lorenzo, o êxtase ao fim do jogo, o protagonismo da Chape nos últimos anos é o que vai ficar, é o que precisa ficar. Assim como a emoção da entrevista do goleiro Danilo, no vestiário, feita por Vitorino Chermont e o êxtase da narração de Deva Pascovicci (ambos, também, vítimas desse acidente) da defesa do mesmo Danilo, também vai ficar.

Cada vez mais nos distanciamos de nossa humanidade e nos afundamos numa sociedade egoísta e simplista. Que com este colossal choque de realidade, saibamos reavaliar o que realmente importa e quem realmente importa na nossa vida.

Força, aos familiares dos jogadores, dos jornalistas e dos tripulantes deste fatídico vôo.

Que Deus os abençoe e os guie.

Imagem topo: Fox Sports Brasil

Compartilhe:

Falaram-me os homens em humanidade

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

 

s.d.
Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. – 336.

Compartilhe:

A Zumbilândia é aqui

Sempre lembro desse trecho do Camus, quando fico brisando sobre a minha vida corporativa (?) do dia-a-dia.

Despertar é necessário, de fato. Ou é isso ou é deixar São Paulo vencer no seu plano de zumbificar pessoas.

Abs

Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o “por quê” e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. “Começa”, isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência. Ela o desperta e provoca sua continuação. A continuação é um retorno inconsciente aos grilhões, ou é o despertar definitivo. Depois do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento.

Albert Camus, O Mito de Sísifo

Compartilhe:

Todos somos um pouco como Sísifo

Chega um momento na vida (ou vários momentos, pra ser sincero) que a gente se sente que nem o Sísifo, naquele mito grego: rolamos nossa pedra pra cima do morro com sufoco e, como se uma força externa começasse a agir, a pedra volta sozinha lá pra baixo e temos que começar tudo de novo. O fato é que a vida é um pouco rolar a pedra morro acima dia após dia; a pedra é um pouco de tudo, o trabalho, as relações pessoais, as contas no banco, a revisão do carro, a renovação da CNH, o trem cheio e por aí vai.

A gente se acostuma, é verdade. De alguma maneira sabemos que não tem muito o que fazer, a não ser fazer. E, pra ser sincero, diferentemente de Sísifo, cujo trabalho repetitivo e inglório era sua punição diária, no nosso caso normalmente há uma recompensa em cima do morro, seja a vista, seja uma árvore pra sentar à sua sombra.

Na minha opinião, não há problema em ter que rolar essa pedra dia após dia – a pedra são nossos desafios e objetivos e ninguém além de nós pode rolá-la; não se pode terceirizar esse trabalho, como muitas vezes tentamos fazer com coisas que não queremos resolver.

A questão é que chega um ponto em que precisamos mudar a pedra, a maneira ou o caminho que usamos pra levá-la morro acima. Chega um ponto em que você se sente rolando a pedra e não obtendo nenhuma recompensa ao fim (igualzinho ao mito) e, em pessoas ansiosas como eu, isso gera um senso urgente de mudança e medo. E como algumas mudanças não dependem apenas da gente, normalmente o medo vira uma nuvem pesada de chuva sobre o caminho – a pedra parece mais pesada, o caminho mais escorregadio e você acredita que, a qualquer momento, vai escorregar e ser esmagado.

Mas, enquanto pudermos vislumbrar o alto do morro e lembrar da sombra ao pé da árvore ou da ampla e limpa vista, a pedra nunca será mais pesada que nossa determinação em levá-la até o topo.

Às vezes, todos somos um pouco como Sísifo. E isso não é ruim.

Abraços.

Compartilhe:

A vida é uma lata de biscoitos

– Pense na vida como uma lata de biscoitos.

Depois de menear a cabeça várias vezes, olhei para o rosto de Midori. 

– Talvez seja por eu não ser muito inteligente, mas às vezes não consigo entender nada do que você diz. 

– Numa lata de biscoitos há vários tipos: de alguns a gente gosta e de outros não gosta muito, não é? Se comermos primeiro todos os biscoitos de que gostamos, no final só sobram os de que não gostamos muito. Sempre penso nisso quando acontece alguma coisa dolorosa na minha vida. Se faço alguma coisa que não me agrada agora, as coisas se tornam mais fáceis depois. Por isso digo que a vida é uma lata de biscoitos.

“Norwegian Wood”, Haruki Murakami

Compartilhe:

Sobre o silêncio

Acontece que o silêncio,
Se não bem apreciado e compreendido,
(E não só se pode fazê-lo, como deve-se)
Pode se tornar facilmente
Um ensurdecedor estampido

Alexandre Flávio, Junho 2015

Compartilhe:

Uma após uma as ondas apressadas

Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva espuma
No moreno das praias.
Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas.
Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.
Só uma vaga pena inconsequente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.

23-11-1918
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). – 78.

Compartilhe:

Alma Não Tem Cor

E não só cor.

Não concorda? www.reclameaqui.com.br

Abs


 

Alma não tem cor
Porque eu sou branco
Alma não tem cor
Porque eu sou negro
Branquinho, neguinho
Branco, negon
Alma não tem cor
Porque eu sou branco
Alma não tem cor
Porque eu sou jorge mautner
Percebam que a alma não tem cor
Ela é colorida
Ela é multicolor
Azul, amarelo, verde, verdinho, marrom
Cê conhece tudo, cê conhece o reggae
Cê conhece tudo né, cê só não se conhece

Karnak

Compartilhe:
« Older posts

© 2019 Alê Flávio

Theme by Anders NorenUp ↑