"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

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Solidão a 4 Mãos

Dentre as coisas que mais me encantam na Bru, sua sensibilidade é uma das mais incríveis. E essa sensibilidade salta aos olhos no poema abaixo, que tive o prazer de ajudar com algumas linhas, mas cujo tema e emoção latente são inteiramente dela.

E sim, puxo saco e pago pau pra ela MESMO. <3 🙂

Amo você, gatinha!


Estar sozinho é o se acompanhar
Se fazer companhia sem querer
Sem querer olhar-se no espelho e talvez se desgostar
Gostar ou não do que os olhos de quem vê, vê.
Se não desviar, gostar
Sorrir pro que se vê
Se satisfazer pela janela do que se sente e traz
Trazer a plenitude do que se gosta e é
Ser talvez tudo aquilo que mais admira e se admirar
Ou chorar
Por preferir se esquivar do que vê
Por não se querer
Por não se acompanhar
E de pouco acompanhar, se perder
Se perder sozinho, se ensimesmar
E, mesmo não conseguindo gostar
Acabar por sozinho estar
E sozinho, afinal, ter de ficar

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Poema em linha reta 

A atualidade dos poemas do Álvaro de Campos chega a assustar… 


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

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O Senhor e o andador

(Imagem: rodrigospilla.wordpress.com)

Com um andador, subia minha rua, um pequeno senhor.
Passos sofridos, difícieis e doloridos.
No semblante, era visível sua frustração.

A cada passo, um suspiro e uma olhada no horizonte –
o que outrora era perto, hoje parecia inalcançável;
e certamente, as estripulias de moleque, ocupavam sua mente

Mas ele seguiu conquistando cada centímetro,
até que, em seu portão apoiou, e, finalmente, descansou
E, para o céu de uma tarde amarela, ergueu seus olhos como em agradecimento.

E de repente todas as minhas angústias pareceram ridículas.

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