Hoje o dia começou bem.

Levantei pouco depois das 8 (já atrasado pra levar a Babi na escolinha, é verdade), mas o humor tava bom. Bru, Babi e eu fizemos nossa rotina, nossa dança matinal aqui em casa; deixei a pequena na escola, passei na padoca, tomei café com a Bru e sentei pra trabalhar. Ah, cortei o cabelo também.

A vida acontecia como sempre acontece, sem menores sustos ou traumas. Até que de repente, em algum momento da tarde, desmontei. Sabe quando parece que você deixa de saber quem você é, ou melhor, quando a gente se fragmenta e fica um pouco de nós em cada lugar no espaço e no tempo? Acho que foi isso.

E num aconteceu nada de necessariamente ruim. Não mesmo. Nem no trabalho, nem aqui em casa, nem na vida de nenhuma pessoa próxima (eu acho, né). Simplesmente foi como se todo o escuro do mundo descesse sobre a minha alma e eu simplesmente entrasse numa espécie de stand by existencial.

Daí estou aqui trancado no escritório, 23:01 de uma quinta-feira, tentando dar alguma espécie de sentido nisso tudo vomitando palavras.

Mas será que precisa ter sentido?

Digo, na terapia, às vezes, eu passo o tempo todo tentando achar razão nas minhas emoções, o que, por si só, já é um tanto contraditório – mas é meio que é isso que a gente faz numa sessão de terapia né? – e esqueço que, às vezes, a gente só precisa sentir o que a gente precisa sentir. Não só na terapia; essencialmente eu cresci dessa maneira: uma pessoa que sempre precisa encontrar um componente racional pra todo e qualquer soluço emocional.

O Alê racional vive em um estado de alerta quase que constante e passa a existência tentando se antecipar às armadilhas que o Alê emocional possa-vir-a-quem-sabe-talvez-tentar-criar, mesmo quando elas não existem. É como se fosse uma doença auto-imune da alma na qual o racional acha que o emocional é um inimigo se preparando pra atacar e, portanto, começa a se defender. No fundo não está se defendendo de ninguém e apenas gastando energia pra, finalmente, sentar num cantinho escuro da minha mente.

Confuso? É, eu também acho. E não é só confuso, é agressivo também, porque incomoda, dá nó na garganta pra um choro que nunca chega e, eventualmente, me empurra pra uma inércia em que eu fico esperando o cérebro entender que deu ruim e, literalmente, reiniciar.

O pior disso tudo é que vai passar (sempre passa), mas como e não sei exatamente o que isso é, quando acontecer de novo – e vai – ficarei novamente refém de mim mesmo.

O ser-humano é todo errado.

Até semana que vem.

*Trecho do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos escrito em 15/1/1928. 1ª publicação in Presença, nº 39. Coimbra: Jul. 1933.

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