Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

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Que sociedade?

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Hoje, peço licença aos amigos leitores para escrever e compartilhar algo que sai um pouco do comum deste site. Obrigado. 🙂


 

We’re definitely not living in a post-racial society – and I can imagine that there are a lot of people out there wondering how much of a society we’re living at all

Jon Stewart

 

Vocês devem ter acompanhado a cobertura de duas mortes ocorridas nos Estados Unidos que geraram uma série de protestos e reações populares: os casos “Michael Brown”, ocorrido em Ferguson (Missouri), e “Eric Garner”, ocorrido em Staten Island (Nova York). Ambos tem em comum o fato que foram dois negros mortos por policiais brancos, além dos policiais terem sido, a princípio, inocentados de terem cometido qualquer ilegalidade ou exagero.

No primeiro caso, a “análise” do que houve é um pouco mais trabalhosa, pois é baseada nos depoimentos do policial, de testemunhas e nos resultados da perícia e afins; já no segundo, há imagens de uma câmera mostrando o que ocorreu.

Há duas grandes discussões levantadas aqui que estão gerando os protestos por todo o país, independentemente dos homens mortos serem culpados de qualquer crime ou não (roubo de cigarros/venda ilegal de cigarros, resumida e respectivamente): a reação exagerada e incompatível dos policiais e, principalmente, a questão racial. É um debate complexo, delicado e amplo e que não se difere muito do que acontece aqui no nosso país. Quantas vezes vemos casos similares aqui? Quantas vezes você – sim, você – não atravessou a rua quando notou uma pessoa negra vindo na mesma calçada que você? Quantas vezes, numa batida policial, o seu amigo negro foi o único a ser ameaçado de ir preso pelo homem responsável por nossa segurança (isso aconteceu comigo e não é historinha pra preencher meu texto, só pra constar)?

É claro que aqui estou me restringindo apenas a essa dicotomia branco/negro, mas podemos expandir essa discussão pensando, também, na camada mais pobre da nossa sociedade. É impressionante como em pleno ano 2014, ainda olhamos de maneira diferente para um moleque que vista roupas “ruins”; aliás, a própria definição de roupa boa/roupa ruim é um tanto quanto preconceituosa, prepotente e, porque não dizer, ridícula. Ou vai dizer que você nunca reparou em como seguranças de shoppings e lojas ficam quando pessoas que eles julgam potenciais marginais entram em seus estabelecimentos, ou como diariamente essas mesmas pessoas são acusadas de coisas que não cometeram?

É mais fácil acusar alguém que não pode se defender, não é? Lembram do filho do Eike Batista, que atropelou um ciclista e tal? Lembro que à época me chamou a atenção o fato de que, quem defendia o filho do empresário brasileiro, dizer que “no Brasil é errado se dar bem na vida”. É possível um debate riquíssimo só sobre essa afirmação mas, ressalto: não estou acusando nem inocentando ninguém, porém, é interessante notar o fluxo de argumentação no caso. O culpado de ser atropelado… foi o atropelado, mesmo ninguém tendo visto nada! Ninguém viu nada, mas tinham o seu culpado. É bem aquela coisa de que a culpada pelo estupro é a mulher, afinal, ela usa saia e decote e provoca isso mesmo (pausa pra vomitar).

Enfim, estou ficando prolixo… vamos às conclusões.

O racismo ainda acontece (alguém falou goleiro Aranha?) o tempo todo. Aqui, nos EUA, na Alemanha, na Lapônia… nossa sociedade ainda é preconceituosa e racista. Menos, talvez, que anos atrás, mas ainda é – e muito. Nós não entendemos a nossa sociedade, precisamos generalizar tudo e não entendemos que, às vezes, o criminoso é branco e mora nos Jardins e o cara correto é negro em mora na favela. Ou, se entendemos, selecionamos os argumentos mais convenientes na mesa do bar – quando isso é discutido na mesa do bar…

E por que resolvi escrever esse texto? Porque outro dia vi um vídeo do Jon Stewart (apresentador do programa americano Daily Show) comentando exatamente esta questão, após o policial do caso Eric Garner ter sido inocentado. Acho que ele conseguiu expor exatamente o que eu penso em relação a estas questões (neste caso, sobretudo, o lance policial branco / agredido negro) e gostaria de pedir a vocês que separem alguns minutinhos para ver o vídeo abaixo. Vale a pena.

Em tempo: agradeço imensamente à Bruna Picoli pela ajuda fundamental no desenvolvimento das idéias desse texto. Obrigado demais, Bru! 🙂

Abraços

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A sonhadora ansiedade de cada um

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Ser ansioso é viver num mundo muito peculiar; é viver dialogando com a eterna fantasia do que ainda não aconteceu e, talvez, nunca, de fato, aconteça. Ou, ainda, querer que o tempo possa ser dobrado ao seu bem entender e que as coisas se movimentem e caminhem quando você bem entende. É ser um pouco egoísta e prepotente, afinal, até o tempo você quer controlar…

É ser um pouco frágil, num certo sentido, também. É não querer aceitar que algumas coisas não podem ser controladas e que as coisas acontecem quando elas têm que acontecer e tudo o que você pode fazer é esperar. É se dar um pouco conta que o centro das coisas não é você – você é uma parte bem pequena dum quebra-cabeças bem grande.

O engraçado é que, em geral, quem é ansioso pras coisas da vida é, também, sonhador – e quem não gosta de sonhar? Parece que essas duas características andam bem juntinhas, ou seja: ao mesmo tempo que você gasta energia desesperado pelo que pode acontecer e/ou porque ainda não aconteceu, você também tem a capacidade de arquitetar aquilo que, pra você, é o mundo ideal que você quer habitar e ser feliz.

Claro que tudo que é exagerado pode ser mais doloroso do que prazeroso; sentir ansiedade demais ou sonhar demais pode nos desconectar além da conta da realidade, do palpável… um pouco que nem aquela cena do filme A Origem, em que a personagem da Marion Cotillard já não sabe mais se ela está sonhando ou se esta vivendo o real (spoiler neste link, se você não viu o filme).

Mas isso, amigos, é a minha modesta opinião, viu? Discordem à vontade, mas eu acredito, num certo sentido, que não se é possível sonhar sem ser ansioso.

E eu sou ansioso.

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Não quero tópicos.

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Sento. Abro o editor de texto. O cursor pisca. A idéia não vem.

Talvez se eu tentar à moda antiga.

Pego um caderno e uma caneta. Abro o caderno. Desenho cubos e carinhas sorridentes. A idéia não vem.

Mas eu quero escrever, cazzo. Tem tanta coisa acontecendo.

Quero escrever sobre a menina que tomou banho no bueiro; sobre a senhora desnorteada pedindo informação na Paulista; sobre a morte do Bolaños; sobre o Natal que, cada vez mais, vira natal; escrever um poema sobre um olhar. Tanta coisa.

Mas não sai nada além de tópicos, como os acima – e escrever, assim como viver, é mais do que listar tópicos.

Mas, uma hora, sai.

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