Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

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Um conto moderno

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Houve momentos em que achei que eu seria um bom contista. Escrevi uma coisa ou outra, mas, como sempre, acabei largando por algum motivo besta.

Tento novamente – que dure mais, agora!

Agradeço de antemão os que lerem e derem sua opinião!

Abs

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Um conto moderno, por Alexandre Ramos Flávio

 

Ele, um cara de meia-idade, andava acelerado em direção ao metrô. Olhava e não via nada em volta, só a quantidade ensurdecedora de carros e pessoas falando alto sobre coisas com as quais ele não se importava. A estação não estava tão longe, mas havia uma tempestade se formando e ele já estava mais do que desconfortável com suas próprias tormentas: algumas contas em atraso, muito tempo sozinho, decepção com suas escolhas políticas… a lista era longa.

Entra na estação, passa a catraca como quem entra num estádio em dia de final e consegue pegar o metrô parado naquela estação. Por uma dessas poucas bem-feitorias do destino, vazio. Encontra um lugar vago – no canto, como gostava – e senta. Coloca os fones, liga a música e pega um livro pra ler. O trajeto é longo e ele já se prepara pra tentar esquecer da sua vida mergulhando no papel.

Não lê uma linha. Quando está se ajustando na cadeira, entra uma moça – é o suficiente pra que ele não consiga mais fazer outra coisa a não ser observá-la. Vinte e tantos anos, séria e segura de si; um olhar extremamente profundo e marcante que o faz esquecer de tudo, da sua vida e do seu livro, afinal, o que ele via naquele olhar era bem mais profundo. Os cabelos levemente ondulados balançavam junto aos movimentos do vagão e ele sentia-se balançar por completo, internamente. Naquele instante, as tormentas todas passaram – só havia brisa e paz.

Em determinado momento, ela percebeu que estava sendo olhada e retribuiu, ainda que timidamente, o olhar. Por alguns segundos eles estiveram no mesmo lugar, na mesmo compasso dessa sinfonia de sons moderna, que teve seu movimento interrompido quando um estranho falou: “próxima estação, Luz”.

Ela se levantou, acenou com a cabeça e desceu.

Ele sorriu e abriu seu livro na página 1.

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Não: devagar

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Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar…
Sim, devagar…
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar…
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima…

Talvez isso tudo…
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar…
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo…
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

Álvaro de Campos

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Uma grande piscina, de fato.

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Pra mim, às vezes a vida se parece como uma grande piscina: você só tira sua cabeça da água pra tomar fôlego e continuar nadando.

Normalmente tudo corre bem: você tira a cabeça, abre os olhos, vê aquelas bandeirinhas, as outras pessoas da piscina e segue. Mas há vezes em que a água entra pelo nariz, pela garganta e você engasga; precisa segurar na borda (ou naquelas divisões flutuantes das raias) pra se recuperar e não se afogar.

Nessa hora, você pondera uma série de coisas, sobretudo a distância até o fim da raia e se você está afim de enfiar a cabeça n’água de novo e ir até o fim.

Há metáfora melhor?

Abs

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