Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

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Heterônimos, pseudônimos

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Almada Negreiros - Retrato de Fernando Pessoa - 1964

Almada Negreiros – Retrato de Fernando Pessoa – 1964

Devia ser um barato ser o Fernando Pessoa.

Sempre dizem que das duas, uma: ou o Pessoa era um gênio, e sabia disso, ou era esquizofrênico e, efetivamente, vivia dezenas (talvez centenas) de vidas diferentes. Mas o que isso, de fato, importa no final?

Tive um professor na faculdade que  sempre dizia que, por mais difícil que seja, não podemos deixar que a vida pessoal do escritor vire parâmetro principal de análise de suas obras. E acho que é bem por aí. É óbvio que as experiências vividas pelo escritor fazem parte de seus textos, assim como os músicos são influenciados pelo que – e por quem – ouvem, mas daí a começar a ler um determinado autor tendo por base que ele “era negro, pobre e tuberculoso” ou “não mantinha residência fixa em lugar nenhum“, é outra coisa.

Se o Pessoa foi, ou não, esquizofrênico, o brilhantismo dos seus textos e sua absurda variação estilística segue lá – e continua sendo um deleite, para pessoas como eu, imaginar que Pessoa fez com que Caeiro, Reis e Campos se conversassem… acho isso demais, e ponto. E tem gente que critica dizendo que isso é fugir da realidade. E daí? É um problema? De certa forma, numa análise fria e amadora, os livros não são uma forma pra o leitor sair da tal realidade e entrar num mundo completamente diferente e viver, por extensão, outra vida?

Hoje em dia é muito difícil você criar pseudônimos, heterônimos e outros ônimos por aí. Sempre tem alguém que passará o dia vasculhando a internet pra descobrir algo sobre o autor e, fatalmente, descobrirá que ele é outro e não um, sabem? Vejam a tal Rowling, que lançou livro sob um pseudônimo e quase que instantaneamente todos já sabiam que ela não era ela, ou era… sei lá. Aí bate a dúvida: as pessoas leram o livro novo porque queriam ler, ou porque “era o novo livro da autora do Harry Potter”? Jamais saberemos, como diria a Erika.

Devia ser um barato ter um pseudônimo/heterônimo e nunca ser descoberto.

E, sim, eu sei a diferença entre os dois. 🙂

É isso.

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Do debate à voadora.

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Os blogs, redes sociais etc trouxeram uma possibilidade legal de “criar conversações”, compartilhar conteúdo e opinião. Você conecta, publica um texto ou comenta uma notícia e compartilha sua opinião com o mundo. Bacana, né? É, mais ou menos.

A questão é que se criou uma coisa muito chata: uma galera que, em geral, não concorda com você, lê o seu texto em busca de falhas, erros, para te atacar e, de certa forma, empurrar a opinião própria goela abaixo, coerentemente ou não. Reforço: cada vez mais não se procura o debate, procura-se a agressão verbal; procura-se desconstruir uma ideia apenas como um passatempo, normalmente sem lógica e, certamente, sem ganho algum para a discussão em si.

Por quê? Porque, de repente, todos viraram especialistas de tudo. Não importa se você passou 5 anos lendo Ulises, do Joyce, pra fazer uma análise crítica do livro – um zé mané vai ler o teu texto, ir à Wikipedia e vomitar algo só pra te sacanear. E sim, é sacanear mesmo. Novamente: não há o debate, há apenas desconstrução, mal e porcamente feita. E gente nervosa – tipo este que vos escreve – terá gastrites por noites e noites bolando uma resposta.

É provável que sempre tenha sido assim; é provável que quando Hesíodo estava lá, cantando a Teogonia, algum cidadão levantou a voz e interpelou o poeta só pelo prazer de provocar o simples bate-boca, ou veio com o famoso irrefutável argumento de “você não sabe de nada. Não foi assim”. Entre outras coisas, a internet ajudou a popularizar isso – e cada vez mais você vê gente que parece ganhar a vida pulando de texto em texto procurando pelo em ovo.

O fato é que é dever do escritor escrever e preparar-se para o debate… ou para a voadora.

Abraços

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No meio do inverno, eu aprendia enfim que havia em mim um verão invencível.

CAMUS, Albert – O Exílio e o Reino

 

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