Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

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Metade

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Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
A outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Pois metade de mim é partida
A outra metade é saudade

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a um homem inundado de sentimentos
Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
A outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância
Pois metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Pois metade de mim é abrigo
A outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Pois metade de mim é plateia
A outra metade é canção

Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também

Oswaldo Montenegro

(Crédito da imagem deste post: https://m.flickr.com/#/photos/andreenascimento/7115838683/)

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Vale a pena querer ser protagonista na história dos outros?

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Quando, no primeiro ano da faculdade, meu professor de Língua Portuguesa José Marinho – um dos melhores professores que já tive – leu o “Se Te Queres Matar” do Álvaro de Campos, dois trechos me chamaram atenção e, até hoje, ficam rodopiando na minha cabeça de tempos em tempos. São eles:

Trecho 1

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

Trecho 2

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Na minha opinião, mais do que modesta, Campos acerta em cheio. Temos uma incrível necessidade de sermos protagonistas na história de vida dos outros (todos os outros!) e, mais que isso, de achar que seremos pessoas insubstituíveis e inolvidáveis. É claro que no poema o autor extrapola o argumento e se utiliza da idéia da morte e de uma pesada insignificância do ser humano para sustentar tal arugmento; porém, acho que dá pra traçar um paralelo com o dia a dia de “gente viva”.

Às vezes pessoas se mudam pra outras cidades e ficamos desesperados com a perspectiva de que, com o tempo, elas poderão nos esquecer; ou mesmo quando você se forma no colégio e teme pelo futuro daquelas amizades incríveis que você construiu. Bem, realmente poderão nos esquecer e as amizades poderão se findar, mas o que se há de fazer? Você fez a sua parte marcando a vida destas pessoas, não? Então, vida que segue.

Não estou aqui dizendo que é inútil tentar fazer a diferença na vida daqueles que você gosta, que você ama – muito pelo contrário: eu acho imprescindível! Mas aqui faço a ressalva que me motivou a escrever esse texto-sem-nexo-da-segunda-feira: deve-se fazer notar o seu apreço, o seu carinho por aqueles que você ama sempre que possível e, claro, desde que seja espontâneo. Mas, talvez, devamos tratar este tema com um pouco mais de leveza, afinal, é uma relação que envolve terceiros – e não temos como controlar como eles vão agir (alguns dirão infelizmente, rs).

Porém, não desista de marcar a vida daqueles que você gosta. Além da sensação incrível que isso causará em você, certamente a quantidade de pessoas que te lembrarão com carinho, ainda que esporadicamente, é bem maior do que as que te jogarão no balaio do esquecimento.

E as que te jogam no balaio do esquecimento, bem, talvez não merecessem de verdade a tua atenção.

Abs

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Geração Biotônico na boca e comida no prato

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Eu não sou de escrever textos relativos ao meu trabalho – ou melhor, relativos ao meu meio de trabalho -, porque já deu muita merda no passado. De qualquer maneira, de alguns meses pra cá, venho observando algumas coisas, algumas tendências um tanto quanto preocupantes e gostaria de compartilhar com vocês. Afinal, possivelmente não é só no meu meio profissional que isso acontece…

Vamos lá.

Sabe aquele adolescente que, mesmo com 15 anos nas costas, ainda tinha a comidinha no prato, colherzinha de Biotônico Fontoura na boca, Trakinas na compra do mês e Passatempo de lanche da escola? Então, ele cresceu e hoje pode ser um gestor em alguma empresa. Tecnicamente, isso não é um problema, já que a adolescência é aquela fase obscura da sua vida e todos – teoricamente – amadurecemos um dia. O problema são os que não amadurecem…

O que acontece? Bom, eles continuam achando que é só ficar sentadinho-com-perninha-de-índio e esperar que as coisas vão acontecer da maneira que lhes melhor convém. E isso é uma grande porcaria.

Tenho reparado cada vez mais em profissionais de cargos importantes e com poder de decisão que fazem cagada em cima de cagada e o motivo pra esse Rio Amazonas de merda é sempre o mesmo: eles acham que alguém vai aparecer – sua vó profissional, por assim dizer – e vai resolver tudo por eles. São pessoas que prometem coisas, se comprometem a entregar projetos sem saber se vão poder fazê-lo e, ao perceber que não será possível, fazem bico, deitam no chão do supermercado e esperam a tal vó profissional se apiedar deles e arrumar um óleo de fígado de rícino pra resolver a bucha.

É surreal.

Eu não sou nenhum sociólogo, filósofo ou psicólogo, mas é preciso entender em que parte da formação dessa molecada (que não é mais molecada, ao menos, por fora) esses “valores” estão deixando de ser corretamente enfiados na cabeça deles.

E não culpem a internet, a Globo, a Nike, o McDonalds, o Assassin’s Creed…

É isso.

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